Imóvel. Leonor está tão quieta que tudo à volta parece mover-se, timidamente, porque se sabe que os objectos não andam, isso seria de estranhar.
Uma sala circular que em vez de amplas janelas em redor possui espelhos. Altos, escuros, velhos.
Reflexos de reflexos, mostram a Leonor ou uma Leonor. Uma Leonor que é a Leonor mas que não conhece a Leonor. Pelo menos não a Leonor que observa, pelos espelhos. Nos reflexos dos reflexos.
Uma lágrima cai, ansiosa, pelo rosto da Leonor (a do espelho?), cai, correndo num grito vitorioso e libertador. Os olhos, portas abertas e escancaradas, revelam um interior vazio. Todo o brilho que ali havia foi roubado. Todo o mistério perdido. Toda a sabedoria fugida.
Um vazio ecoando o grito da lágrima, que levava com ela a essência da alma.
Outrora castanhos, até a cor já era inexistente substituída pelo cinzento do interior vão.
Era por esses mesmos olhos que Leonor observava, ausente, o reflexo dos seus olhos. Ou dos olhos da Leonor que ali estava, reflectida. Que não era ela que não podia ser ela, assim ali, imóvel, petrificada.
Ouve-se o ranger dos objectos que se movem não se movendo, numa sinfonia intangível que apetece perseguir, deixando o corpo para trás. Como aquele, que ali se mantinha no meio da sala circular, estático e oco, assim abandonado pelo imponente roubo da alma da Leonor. Ou de uma qualquer Leonor.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Excerto.
"I
Ela está sozinha no quarto apagado. A cabeça encostada ao vidro da janela, desfocado pela chuva que nele bate e embaciado da sua respiração. Olha para o quarto. Por mais candeeiros que ligue está tudo escuro, calado, parado. Lá fora o cenário é outro, vê as luzes das casas amontoadas, tudo muito tremido e ela compara-o à sua própria vida. Tremida. Sim, tremida é o melhor termo para definir aquilo que Catherine tem sido e feito. Levanta-se lentamente, a sua mão toca no vidro frio e, neste mesmo ritmo lento, calça-se e veste o primeiro casaco que encontra.
Desce as escadas, pé ante pé, em direcção ao hall de entrada. A casa permanece num transe imóvel e silencioso até ao primeiro sinal de vida. Um ruído crescente marca a presença de alguém na sala de estar a ouvir o noticiário.
Com um “boa-noite” largado no ar, sai para a rua. Também ela apagada. Fria. Desconcertante. A chuva tinha agora parado.
Era uma noite escura, carregada de nuvens ameaçadoras e Cath passeava sozinha. Não levara chave do carro, nem tão pouco guarda-chuva, decidira apanhar o metro sem destino. O frio de Inverno já se fazia sentir, Cath aconchegou o pescoço com a gola da camisola bege, enquanto o vento acariciava os seus longos cabelos castanhos.
Estava completamente perdida. Quando entrou no primeiro metro que chegou, os seus sentidos foram despertados pelo ar saturado, a mistura de vozes desconhecidas e pouco perceptíveis. Sentada entre plenos desconhecidos, não sabia ao certo o que pensar naquele momento. Como pudera ser tão idiota acreditando… Mexe-se desconfortavelmente no lugar onde está sentada e olha lá para fora. As árvores dançam com o vento lá fora. Folhas caem e fogem para longe.
É óbvio que deveria ter pensado que algo assim iria acontecer."
Ela está sozinha no quarto apagado. A cabeça encostada ao vidro da janela, desfocado pela chuva que nele bate e embaciado da sua respiração. Olha para o quarto. Por mais candeeiros que ligue está tudo escuro, calado, parado. Lá fora o cenário é outro, vê as luzes das casas amontoadas, tudo muito tremido e ela compara-o à sua própria vida. Tremida. Sim, tremida é o melhor termo para definir aquilo que Catherine tem sido e feito. Levanta-se lentamente, a sua mão toca no vidro frio e, neste mesmo ritmo lento, calça-se e veste o primeiro casaco que encontra.
Desce as escadas, pé ante pé, em direcção ao hall de entrada. A casa permanece num transe imóvel e silencioso até ao primeiro sinal de vida. Um ruído crescente marca a presença de alguém na sala de estar a ouvir o noticiário.
Com um “boa-noite” largado no ar, sai para a rua. Também ela apagada. Fria. Desconcertante. A chuva tinha agora parado.
Era uma noite escura, carregada de nuvens ameaçadoras e Cath passeava sozinha. Não levara chave do carro, nem tão pouco guarda-chuva, decidira apanhar o metro sem destino. O frio de Inverno já se fazia sentir, Cath aconchegou o pescoço com a gola da camisola bege, enquanto o vento acariciava os seus longos cabelos castanhos.
Estava completamente perdida. Quando entrou no primeiro metro que chegou, os seus sentidos foram despertados pelo ar saturado, a mistura de vozes desconhecidas e pouco perceptíveis. Sentada entre plenos desconhecidos, não sabia ao certo o que pensar naquele momento. Como pudera ser tão idiota acreditando… Mexe-se desconfortavelmente no lugar onde está sentada e olha lá para fora. As árvores dançam com o vento lá fora. Folhas caem e fogem para longe.
É óbvio que deveria ter pensado que algo assim iria acontecer."
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
E se.
Sento-me na berma do passeio, depois de caminhar um pouco no silêncio da noite triste e adormecida. Estou num daqueles momentos em que pensamos em tudo ao mesmo tempo. Parece que peguei num leque infinito de "se's" e o estendi pela rua. Já o perdi de vista e ainda não vou a meio sequer.
Vou avançando no leque que é agora uma longa e infinita passadeira, ao que se vê. Não consigo tirar daqui os pés, avanço, recuo, avanço mais um bocado. Olho para trás, hesitante, mas continuo a avançar. Afinal, ainda há muitos "se's" pela frente.
Vozes, gritos e murmúrios. Rostos. Pedaços de histórias, de momentos. Dias e noites. Memórias e possibilidades.
Sigo por todas elas, fico tonta a cada passo, agora de corrida, cada passo como um salto, por entre flashes de cores psicadélicas. Os olhos fazem um esforço para não se fecharem ao choque, o ar falha, o leque nunca mais acaba...
...
...
...
...
Obrigo-me a parar. Pára! Fecho os olhos, finalmente. Sinto-me segura, acalmo-me, ouço-me respirar, sinto-me histérica. Não há nada à minha volta agora. Nada de estradas longas e leques. Nada de vozes que me perseguem, ou sequer luzes do psicadélico. Começo a sentir-me confortável.
Afinal abri os olhos, afinal acordei.
O leque guardei-o no bolso. Os "se's" devem ser guardados assim, abafados pelas certezas de actos e palavras. Certo?
Vou avançando no leque que é agora uma longa e infinita passadeira, ao que se vê. Não consigo tirar daqui os pés, avanço, recuo, avanço mais um bocado. Olho para trás, hesitante, mas continuo a avançar. Afinal, ainda há muitos "se's" pela frente.
Vozes, gritos e murmúrios. Rostos. Pedaços de histórias, de momentos. Dias e noites. Memórias e possibilidades.
Sigo por todas elas, fico tonta a cada passo, agora de corrida, cada passo como um salto, por entre flashes de cores psicadélicas. Os olhos fazem um esforço para não se fecharem ao choque, o ar falha, o leque nunca mais acaba...
...
...
...
...
Obrigo-me a parar. Pára! Fecho os olhos, finalmente. Sinto-me segura, acalmo-me, ouço-me respirar, sinto-me histérica. Não há nada à minha volta agora. Nada de estradas longas e leques. Nada de vozes que me perseguem, ou sequer luzes do psicadélico. Começo a sentir-me confortável.
Afinal abri os olhos, afinal acordei.
O leque guardei-o no bolso. Os "se's" devem ser guardados assim, abafados pelas certezas de actos e palavras. Certo?
domingo, 25 de outubro de 2009
Suspiros e espirros.
Suspiros. Suspiros embebidos em sarcasmo. Sarcasmo de uma gargalhada ilusória, perdida e desfeita em partículas tão pequenas que, num abrir e fechar de olhos, já nem se sentem.
É isso que provocas em mim, com este teu súbito ataque de saudades.
Ao fim de um ano, um ano! Achas que podes voltar e fingir que está tudo bem? Não tens a mínima noção do que passei, do que passou?
Não vou deixar que voltes. Sabes o que tenho para ti, agora? Nada. Absolutamente nada, a não ser suspiros de risos.
"Hoje preciso de um pois, preciso de um sim.
O que é que queres de mim, hoje sinto-me assim.
Hoje preciso de um pois, preciso de um sim.
O que é que queres de mim, hoje sinto-me assim.
Ecos de risos, sinfonias de gritos. Como sangue
na barriga de mosquitos.
Hoje preciso de mim.
Mostra o teu jogo. Eu pago para ver." Linda Martini, Quarto 210
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Welcome to Fall.
O tempo frio já se fazia notar. Apertou mais um pouco as golas do casaco contra o pescoço, quando o vento fez o seu cabelo esvoaçar por todos os lados. Procurou a chave com a outra mão, naquela carteira cheia de tralha. Não voltas a sair de casa sem limpar e organizar esta carteira Leonor, pensou para si mesma, encontrando finalmente a chave.
Abriu a porta e entrou. A sua gatinha esperava-a, mesmo na entrada, miando e roçando-se nas pernas de Leonor, que pegou nela, com o braço livre da carteira. Passou na casa-de-banho, ligando o pequeno ventilador, e dirigiu-se para o quarto, pousando a gata em cima da cama, a carteira, o casaco e as botas.
Voltou para a casa de banho, despiu-se, rapidamente, e entrou na banheira. O primeiro jacto de água quente fê-la arrepiar-se de alívio. Um fluxo de calor começava a inunda-la de prazer, e os pés, antes gelados, começavam finalmente a aquecer. Tomou o, que poderá ter sido, mais longo banho de sempre.
Quando acabou, quase como que acordando de um estado de transe, tentou ver-se ao espelho, inutilmente, já que este estava completamente embaciado.
Apreciou o seu reflexo desfocado. Chorou.
É impossível ter a certeza do que quer que seja, planear seja o que for. Há sempre algo que muda, ou algo que nos faz (querer) mudar. E depois, as escolhas que fazemos (ou que nos são permitidas fazer) são a vírgula, o parágrafo ou até mesmo o virar da página, no livro da nossa vida.
A questão é, consegues viver com isso?
Leonor passou a mão no espelho, para se conseguir ver melhor. Sorriu.
Abriu a porta e entrou. A sua gatinha esperava-a, mesmo na entrada, miando e roçando-se nas pernas de Leonor, que pegou nela, com o braço livre da carteira. Passou na casa-de-banho, ligando o pequeno ventilador, e dirigiu-se para o quarto, pousando a gata em cima da cama, a carteira, o casaco e as botas.
Voltou para a casa de banho, despiu-se, rapidamente, e entrou na banheira. O primeiro jacto de água quente fê-la arrepiar-se de alívio. Um fluxo de calor começava a inunda-la de prazer, e os pés, antes gelados, começavam finalmente a aquecer. Tomou o, que poderá ter sido, mais longo banho de sempre.
Quando acabou, quase como que acordando de um estado de transe, tentou ver-se ao espelho, inutilmente, já que este estava completamente embaciado.
Apreciou o seu reflexo desfocado. Chorou.
É impossível ter a certeza do que quer que seja, planear seja o que for. Há sempre algo que muda, ou algo que nos faz (querer) mudar. E depois, as escolhas que fazemos (ou que nos são permitidas fazer) são a vírgula, o parágrafo ou até mesmo o virar da página, no livro da nossa vida.
A questão é, consegues viver com isso?
Leonor passou a mão no espelho, para se conseguir ver melhor. Sorriu.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Uma dança.
Aos poucos chegam as primeiras notas, duma melodia que vai enchendo e preenchendo o espaço à sua volta.
Chega, arrastando consigo paixões e ódios, numa atmosfera que nos sufoca de sentimentos e desejos.
Respiramos fundo e ela possui-nos por completo! Fechamos os olhos, mas é impossível resistir. Franzimos a testa, mordemos o lábio, contraímos cada músculo.
Abrimos os olhos e procuramos, sob a media luz.
Vens na minha direcção. Um drama que se condensa em cheiros e sons. E que se precipita, depois, a cada movimento.
Levantamo-nos e caminhamos em frente, sem desvios de olhar. Um duelo cruel e devastador. Cruzamo-nos e abraçamo-nos brutalmente, a minha mão no teu pescoço, a tua mão na minha cintura. Um desejo voraz agora.
Dançamos num compasso rápido, respiração sustenta. Depois lento, numa expiração ofegante.
Empurras-me à tua frente, numa agressão não física, invades-me, provocas-me, destróis-me. Atiras-me sem piedade para o chão, não me deixando cair no entanto, levantando-me de seguida num só movimento, duro. Ferem-se as vistas de quem nos observa.
Os nossos lábios quase se tocam agora, durante um jogo de pernas. As tuas mãos largam o meu cabelo, percorrendo o meu corpo, segurando-me pelo ventre. Faço com que me largues, num golpe veloz, caminho à tua volta em círculos apertados.
Agarras-me, numa agonia doentia, uma paixão que queima a cada toque, a cada nota mais aguda.
A sala quente fecha-se ao nosso redor.
Sabemos que a música está prestes a acabar.
Aproximamo-nos, respiração com respiração, corpos molhados de suor, quentes de tango, e olhamo-nos fixamente, num desejo e numa raiva ardente, acabando.
Chega, arrastando consigo paixões e ódios, numa atmosfera que nos sufoca de sentimentos e desejos.
Respiramos fundo e ela possui-nos por completo! Fechamos os olhos, mas é impossível resistir. Franzimos a testa, mordemos o lábio, contraímos cada músculo.
Abrimos os olhos e procuramos, sob a media luz.
Vens na minha direcção. Um drama que se condensa em cheiros e sons. E que se precipita, depois, a cada movimento.
Levantamo-nos e caminhamos em frente, sem desvios de olhar. Um duelo cruel e devastador. Cruzamo-nos e abraçamo-nos brutalmente, a minha mão no teu pescoço, a tua mão na minha cintura. Um desejo voraz agora.
Dançamos num compasso rápido, respiração sustenta. Depois lento, numa expiração ofegante.
Empurras-me à tua frente, numa agressão não física, invades-me, provocas-me, destróis-me. Atiras-me sem piedade para o chão, não me deixando cair no entanto, levantando-me de seguida num só movimento, duro. Ferem-se as vistas de quem nos observa.
Os nossos lábios quase se tocam agora, durante um jogo de pernas. As tuas mãos largam o meu cabelo, percorrendo o meu corpo, segurando-me pelo ventre. Faço com que me largues, num golpe veloz, caminho à tua volta em círculos apertados.
Agarras-me, numa agonia doentia, uma paixão que queima a cada toque, a cada nota mais aguda.
A sala quente fecha-se ao nosso redor.
Sabemos que a música está prestes a acabar.
Aproximamo-nos, respiração com respiração, corpos molhados de suor, quentes de tango, e olhamo-nos fixamente, num desejo e numa raiva ardente, acabando.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Lifeboat.
Estava forte, a maré. Demasiado forte. Leonor tentava, em vão, remar contra a corrente, cada vez mais agressiva e zangada. O céu parecia cada vez mais baixo, tão baixo que ela sentia as nuvens rasarem-lhe a nuca. A bruma densa como breu toldava-lhe a visão, já de si fraca, não fosse Leonor míope.
Estava frio, daquele frio que nos gela o coração. E os braços queixavam-se de dor e cansaço, tinha de parar, algures, e não conseguia.
Então Leonor acordou. O cansaço mantém-se...
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Nobody knows it.
Esta é a vantagem dos segredos. Ninguém sabe, ninguém vê, ninguém ouve, ninguém percebe.
Às vezes não é por ser grave, ou sequer por alguém vir a saber da sua existência... Mas porque até lá somos completa e totalmente livres. Podemos dizer, fazer, não dizer, não fazer. Podemos manipula-lo como bem entendermos.
Quando temos o nosso segredo o mundo parece demasiado pequeno, é sempre noite de Verão, ou fim de tarde de Outono. É o que quisermos.
Falo daqueles segredos bons de ter, daqueles que são segredos por pura e simplesmente tornarem um facto num conto de fadas, e então queremos guarda-lo só para nós.
Estou a exagerar, às vezes tenho essa tendência Leonoresca...
Mas não, não estou a exagerar.
Se calhar é porque é raro. Parece que encontrei uma jóia preciosa (a última que encontrei revelou-se afinal um pedregulho cheio de musgo), e não sei bem o que fazer com ela. Para já vai ficar assim, depois logo se vê.
Gostava de vos dizer o quão ridícula é a importância que estou a dar a isto, mas não posso, é segredo!
Às vezes não é por ser grave, ou sequer por alguém vir a saber da sua existência... Mas porque até lá somos completa e totalmente livres. Podemos dizer, fazer, não dizer, não fazer. Podemos manipula-lo como bem entendermos.
Quando temos o nosso segredo o mundo parece demasiado pequeno, é sempre noite de Verão, ou fim de tarde de Outono. É o que quisermos.
Falo daqueles segredos bons de ter, daqueles que são segredos por pura e simplesmente tornarem um facto num conto de fadas, e então queremos guarda-lo só para nós.
Estou a exagerar, às vezes tenho essa tendência Leonoresca...
Mas não, não estou a exagerar.
Se calhar é porque é raro. Parece que encontrei uma jóia preciosa (a última que encontrei revelou-se afinal um pedregulho cheio de musgo), e não sei bem o que fazer com ela. Para já vai ficar assim, depois logo se vê.
Gostava de vos dizer o quão ridícula é a importância que estou a dar a isto, mas não posso, é segredo!
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Saudade, nostalgia, melancolia.
Hoje foi bem estranho. Foi um daqueles dias em que todo e qualquer imprevisto parece planeado. Foi estranho, pronto! Senti o cérebro como o meu portátil ao ligar: a demorar horas a processar a simples informação de abrir a página da Internet.
Foi rápido, foi simples. Foi como um veneno injectado, só quando me tentei mexer é que senti os músculos paralisados. E depois aquela sensação amarga, áspera. E depois passou.
Há bocado fui para a varanda. Deixei a porta semi-aberta, para poder ouvir Explosions In The Sky, que deixei a dar no portátil (estava na The Moon Is Down, linda!). Sentei-me na cadeira de palha que lá tenho, acendi o cigarro e recostei-me, como que afogando-me na cadeira e no ar da noite, com aquele trago de fumo e de "explosions".
A sensação amarga avassalou-me, senti uma vontade de me mexer imediatamente, tirar aquela incómoda sensação de mim e no entanto o corpo estava demasiado pesado para isso, demasiado teimoso. Completamente derrotado e rendido. Não dei luta sequer, limitei-me a continuar tal como estava, levando mecanicamente o cigarro à boca, a deixar-me invadir pela música e pelas memórias de ti.
Era essa a estranha sensação. Era saudade, era nostalgia, era melancolia. Era a minha prudente impotência perante ti.
Hoje senti, especialmente, falta das tuas histórias e planos, do teu riso, do teu abrigo.
Apaguei o cigarro e entrei. Deixei-me ficar no escuro.
Foi rápido, foi simples. Foi como um veneno injectado, só quando me tentei mexer é que senti os músculos paralisados. E depois aquela sensação amarga, áspera. E depois passou.
Há bocado fui para a varanda. Deixei a porta semi-aberta, para poder ouvir Explosions In The Sky, que deixei a dar no portátil (estava na The Moon Is Down, linda!). Sentei-me na cadeira de palha que lá tenho, acendi o cigarro e recostei-me, como que afogando-me na cadeira e no ar da noite, com aquele trago de fumo e de "explosions".
A sensação amarga avassalou-me, senti uma vontade de me mexer imediatamente, tirar aquela incómoda sensação de mim e no entanto o corpo estava demasiado pesado para isso, demasiado teimoso. Completamente derrotado e rendido. Não dei luta sequer, limitei-me a continuar tal como estava, levando mecanicamente o cigarro à boca, a deixar-me invadir pela música e pelas memórias de ti.
Era essa a estranha sensação. Era saudade, era nostalgia, era melancolia. Era a minha prudente impotência perante ti.
Hoje senti, especialmente, falta das tuas histórias e planos, do teu riso, do teu abrigo.
Apaguei o cigarro e entrei. Deixei-me ficar no escuro.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Quem tem medo do escuro?
O medo. Há vários medos porque há várias pessoas. Todos eles diferem, mas todos eles tocam em alguém em comum.
Há um em especial que desperta a minha curiosidade... Um que me é comum. O medo do escuro.
Caminhamos por nossa casa milhões de vezes, até o podemos fazer de olhos fechados porque a conhecemos de cor. Sabemos perfeitamente que a seguir ao sofá está aquele vaso castanho grande, e que a casa de banho fica à direita, e a cozinha ao fundo do corredor.
Mas à noite... À noite tudo está calado e apagado. Tudo parece maior e mais pequeno. Quando cai a noite, que cobre tudo com aquele manto negro, tudo parece diferente, tudo parece fora do sítio.
É irracional sentir medo de algo assim.
Cada silêncio desperta um a um, cada sentido. E a cada som, explodimos.
Às vezes corremos, pensando que a escuridão não custa tanto assim, escondemo-nos e fechamos os olhos com força. Pegamos no mp3, pomos música nas alturas e deixamo-nos estar, até o medo passar. Escondemo-nos na nossa escuridão, para fugir a escuridão da nossa casa. (ou aos aliens daquele filme de terror que não deviamos ter visto sozinhos)
É de facto um medo estranho... é que, às vezes, é só ligar a luz e está tudo como sempre esteve.
(sim, mas eu continuo com medo do escuro)
Há um em especial que desperta a minha curiosidade... Um que me é comum. O medo do escuro.
Caminhamos por nossa casa milhões de vezes, até o podemos fazer de olhos fechados porque a conhecemos de cor. Sabemos perfeitamente que a seguir ao sofá está aquele vaso castanho grande, e que a casa de banho fica à direita, e a cozinha ao fundo do corredor.
Mas à noite... À noite tudo está calado e apagado. Tudo parece maior e mais pequeno. Quando cai a noite, que cobre tudo com aquele manto negro, tudo parece diferente, tudo parece fora do sítio.
É irracional sentir medo de algo assim.
Cada silêncio desperta um a um, cada sentido. E a cada som, explodimos.
Às vezes corremos, pensando que a escuridão não custa tanto assim, escondemo-nos e fechamos os olhos com força. Pegamos no mp3, pomos música nas alturas e deixamo-nos estar, até o medo passar. Escondemo-nos na nossa escuridão, para fugir a escuridão da nossa casa. (ou aos aliens daquele filme de terror que não deviamos ter visto sozinhos)
É de facto um medo estranho... é que, às vezes, é só ligar a luz e está tudo como sempre esteve.
(sim, mas eu continuo com medo do escuro)
domingo, 6 de setembro de 2009
São coisas.
Não consigo. Não sei porquê, mas deixei de conseguir.
Houve uma altura que decidi saltar de pára-quedas. Comecei e nunca mais consegui parar. Era a melhor sensação do mundo esticar o pé e puf, nada, a não ser uma grande queda. Lançar-me de cabeça, de braços abertos, às cambalhotas... A partir do momento em que largava os pés e me lançava era sempre uma nova queda, um novo rodízio de sensações e paixões, até que o chão se aproximava e era altura de abrir o pára-quedas. As sensações ficavam suspensas, enquanto eu caía, suavemente, para pôr de novo os pés no chão.
Ficava sempre um bocado lá com os pés. Nalguns sítios mais tempo do que nos outros, a saborear o salto e a queda, (quase) sempre melhor que o anterior. Sim, ficava por lá um bocado. Mas não havia problema, ás vezes é preciso deixar os pés um bocado no chão, só um bocado, até porque no dia a seguir já lá estava em cima outra vez, pronta para saltar.
Não havia problema. Lá está, havia.
Não estou a conseguir saltar. Estou a dar em maluca aqui parada, a segurar com força as alças do pára-quedas, sem conseguir pôr o pé em falso.
Estive demasiado tempo ali em baixo, com os pés assentes naquele sítio. E se agora o meu pára-quedas falhar? E se o meu pára-quedas não me fizer abrandar e ficar estatelada no chão, para sempre?
Não consigo, hoje não consigo. Hoje vou aterrar aqui, onde estava, logo se vê quando volto a saltar.
Houve uma altura que decidi saltar de pára-quedas. Comecei e nunca mais consegui parar. Era a melhor sensação do mundo esticar o pé e puf, nada, a não ser uma grande queda. Lançar-me de cabeça, de braços abertos, às cambalhotas... A partir do momento em que largava os pés e me lançava era sempre uma nova queda, um novo rodízio de sensações e paixões, até que o chão se aproximava e era altura de abrir o pára-quedas. As sensações ficavam suspensas, enquanto eu caía, suavemente, para pôr de novo os pés no chão.
Ficava sempre um bocado lá com os pés. Nalguns sítios mais tempo do que nos outros, a saborear o salto e a queda, (quase) sempre melhor que o anterior. Sim, ficava por lá um bocado. Mas não havia problema, ás vezes é preciso deixar os pés um bocado no chão, só um bocado, até porque no dia a seguir já lá estava em cima outra vez, pronta para saltar.
Não havia problema. Lá está, havia.
Não estou a conseguir saltar. Estou a dar em maluca aqui parada, a segurar com força as alças do pára-quedas, sem conseguir pôr o pé em falso.
Estive demasiado tempo ali em baixo, com os pés assentes naquele sítio. E se agora o meu pára-quedas falhar? E se o meu pára-quedas não me fizer abrandar e ficar estatelada no chão, para sempre?
Não consigo, hoje não consigo. Hoje vou aterrar aqui, onde estava, logo se vê quando volto a saltar.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Hoje.
Hoje abri o meu baú velho, o que está guardado no sótão porque me ocupava muito espaço no quarto e na fase eu sou jovem, rebelde e in não tenho espaço no quarto para baús com coisas inúteis.
Abri-o com muito cuidado. Há memórias demasiado frágeis, tão frágeis que às vezes se podem quebrar ao mínimo toque.
Não queria que isso acontecesse. Ainda por cima o sótão é tão desprovido de iluminação que alguma delas ainda se perdia por lá, mais para aquele cantinho, aquele mais escuro, onde dormem as aranhas grandes e gordas.
Puxei a débil lâmpada para conseguir, assim, mais luz (eu bem tinha dito que era preciso troca-la). Senti magia saltar dali. O pó que estava no ar parecia cintilar, fazendo-me sorrir, melancólica.
Sentei-me de cócoras e peguei, ainda a medo, numa caixinha de veludo vermelho. Lembrei-me, ainda antes de a abrir, do que se encontrava no seu interior. Sorri novamente.
Não era nada de especial, para vocês, de certeza. Era apenas uma caixa velha, cheia de pequenos papéis a maior parte amarrotada, de bilhetes. Aqueles bilhetes que trocamos com aquele rapaz especial, na aula de físico-química. E aqueles bilhetes que partilhamos com a melhor amiga, a contar dos bilhetes daquele rapaz especial, que fica sempre dois lugares atrás de nós, na aula de físico-química.
Continuei na minha busca de memórias perdidas. Por entre álbuns, brinquedos, cartas, até um ou dois livros, encontrei-me. Algumas das memórias que lá estavam nem tinham consistência física, apenas estavam lá, também embrulhadas em pó do tempo.
Sorri e, antes de fechar, decidi guardar lá mais uma memória. Decidi que cada fase da minha vida, mesmo as menos boas, como esta, ou melhor, como tu, devem ficar lá. Naquele baú velho, cheio de amores, de risos, de lágrimas e guerras. Naquele baú velho, no meu sótão, cheio de memórias.
No meu baú velho, as memórias tiram-te o rancor, e ficam lá, para serem recordadas, na escassa luz daquela lâmpada por trocar, na magia do pó cintilante, com cuidado, para não se partir.
Abri-o com muito cuidado. Há memórias demasiado frágeis, tão frágeis que às vezes se podem quebrar ao mínimo toque.
Não queria que isso acontecesse. Ainda por cima o sótão é tão desprovido de iluminação que alguma delas ainda se perdia por lá, mais para aquele cantinho, aquele mais escuro, onde dormem as aranhas grandes e gordas.
Puxei a débil lâmpada para conseguir, assim, mais luz (eu bem tinha dito que era preciso troca-la). Senti magia saltar dali. O pó que estava no ar parecia cintilar, fazendo-me sorrir, melancólica.
Sentei-me de cócoras e peguei, ainda a medo, numa caixinha de veludo vermelho. Lembrei-me, ainda antes de a abrir, do que se encontrava no seu interior. Sorri novamente.
Não era nada de especial, para vocês, de certeza. Era apenas uma caixa velha, cheia de pequenos papéis a maior parte amarrotada, de bilhetes. Aqueles bilhetes que trocamos com aquele rapaz especial, na aula de físico-química. E aqueles bilhetes que partilhamos com a melhor amiga, a contar dos bilhetes daquele rapaz especial, que fica sempre dois lugares atrás de nós, na aula de físico-química.
Continuei na minha busca de memórias perdidas. Por entre álbuns, brinquedos, cartas, até um ou dois livros, encontrei-me. Algumas das memórias que lá estavam nem tinham consistência física, apenas estavam lá, também embrulhadas em pó do tempo.
Sorri e, antes de fechar, decidi guardar lá mais uma memória. Decidi que cada fase da minha vida, mesmo as menos boas, como esta, ou melhor, como tu, devem ficar lá. Naquele baú velho, cheio de amores, de risos, de lágrimas e guerras. Naquele baú velho, no meu sótão, cheio de memórias.
No meu baú velho, as memórias tiram-te o rancor, e ficam lá, para serem recordadas, na escassa luz daquela lâmpada por trocar, na magia do pó cintilante, com cuidado, para não se partir.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
A tua mão na minha.
Não vi, nem sei quem és.
Quem és, desconhecido, com essa estranha melodia que te acompanha?
Sinto o ar vibrar, quando te aproximas.
Continuo sem ver, deixa-me ver!
Estás a pegar-me na mão, ou é seda que me envolve?
E o chão, que se passa com ele que não o sinto?
Deixa-me ver-te, deixa-me apertar a tua mão com força.
Não! Não me largues já, eu prometo que não insisto, só não me deixes cair...
Que estranha segurança é esta que me transmites?
Agora pára, deixa-me decorar este momento.
Um dia, quando me deixares ver-te (ou me deixar ver-te), vou apertar-te a mão com esta intensidade. Vou estar ofegante, como estou agora, e com a nuca arrepiada. Vou lembrar-me, ao toque da tua mão, deste mesmo toque e de todas estas cores, de todos estes sons, de todos estes cheiros.
Agora podes largar-me, é hora de acordar.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
O passado é a base do nosso futuro, não?
Ela corria. Já há mais de uma hora, por sinal. Não sabia ao certo que horas eram, mas sabia que era tarde. E que estava frio também, apesar de ter deixado de o sentir após a primeira meia hora de corrida.
Há mais de uma hora tinha chegado a casa desfeita. Entrou no quarto, procurou debaixo da cama aquelas nike que comprara há um mês nos saldos, trocou de roupa, sem saber bem como e calçou-as. Pôs o carapuço na cabeça e antes de sair, hesitou em frente ao espelho do hall.
Estava com um péssimo aspecto, agora aquela maquilhagem resistente à água mas custo um salário dos teus parecia-lhe bastante inteligente.
Não é que isso interessasse agora. Não é que interessasse de todo.
Puxou mais o carapuço, tapando quase a testa por completo, limpou os olhos com a manga do casaco preto, respirou fundo e saiu.
Agora já estava a correr há mais de uma hora, e não se sentia melhor. A diferença é que ali nada importava além de continuar a correr.
Se Leonor não fosse tão complicada talvez não estivesse agora prestes a desfalecer de cansaço, com frio, tensão baixa de certeza... Mas há muita coisa que continua a não estar bem.
Parou, apoiando uma mão no bebedouro à sua esquerda, curvando-se e vomitando.
Molhou a cara com a água fria. Sentou-se no banco de madeira, outrora vermelho, daquele parque, outrora belo.
Há coisas que não mudam. Mas que se podem adaptar.
Leonor não podia mudar, nem as coisas que fez podiam ser, de forma alguma, alteradas.
Alguém, algum dia compreenderá isso?
Há mais de uma hora tinha chegado a casa desfeita. Entrou no quarto, procurou debaixo da cama aquelas nike que comprara há um mês nos saldos, trocou de roupa, sem saber bem como e calçou-as. Pôs o carapuço na cabeça e antes de sair, hesitou em frente ao espelho do hall.
Estava com um péssimo aspecto, agora aquela maquilhagem resistente à água mas custo um salário dos teus parecia-lhe bastante inteligente.
Não é que isso interessasse agora. Não é que interessasse de todo.
Puxou mais o carapuço, tapando quase a testa por completo, limpou os olhos com a manga do casaco preto, respirou fundo e saiu.
Agora já estava a correr há mais de uma hora, e não se sentia melhor. A diferença é que ali nada importava além de continuar a correr.
Se Leonor não fosse tão complicada talvez não estivesse agora prestes a desfalecer de cansaço, com frio, tensão baixa de certeza... Mas há muita coisa que continua a não estar bem.
Parou, apoiando uma mão no bebedouro à sua esquerda, curvando-se e vomitando.
Molhou a cara com a água fria. Sentou-se no banco de madeira, outrora vermelho, daquele parque, outrora belo.
Há coisas que não mudam. Mas que se podem adaptar.
Leonor não podia mudar, nem as coisas que fez podiam ser, de forma alguma, alteradas.
Alguém, algum dia compreenderá isso?
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Hoje não quero falar contigo.
Hoje não quero falar contigo.
Não te atendo o telemóvel e escusas de tentar vir cá ter a casa. Finjo que não estou.
Hoje posso até destruir tudo o que esteja à vista e roer as unhas da mão esquerda enquanto seguro o telemóvel que vibra na direita, quando me voltas a ligar mas não vou ouvir a tua voz. Não. Não o vou fazer porque não o suportaria.
A minha vontade é correr para ti, e não dizer-te que não! Abraçar-te enquanto me levantas facilmente do chão e me apertas contra o teu peito. Como o farias. Depois irias pousar-me, não me largando ainda, cingindo-me pela cintura. Olharíamos loucos um para o outro, no momento em que as nossas bocas se buscavam, ofegantes, unindo-se finalmente, num beijo tão duro que nada se parece com os que estamos habituados a ver nos filmes românticos de domingo à tarde. Seria um beijo, como nós, louco. Seria bruto, extasiante, desenvergonhado. Ordinário. E acabava.
Nesse momento já não me abraçando. Olhavas-me numa urgência, olhos ávidos de desejo e eu compreenderia de imediato o que se passaria a seguir. Sem espaço ou tempo para pensar, já estaria no novo nos teus braços, nas tuas mãos. Sem saber como, já estaria encostada à parede, enquanto me despias o essencial. Os meus dedos entrelaçavam-se no teu cabelo curto, e apertavam-no com força, puxando-te assim para mim.
Seria uma, duas, três vezes. Teríamos a noite por nossa conta. E o dia. Porque ambos quereríamos sempre mais, e mais. E depois acabava.
Hoje não quero falar contigo. Não quero, não posso, não consigo falar contigo. Não consigo porque teria de dizer-te que não.
Hoje não te adianta sequer mandar sms's, porque vou fazer o que fiz às outras: abrir, ler, fechar e pousar de novo o telemóvel em cima daquela mesinha onde tenho o espelho redondo e umas quantas velas, sabes? As de baunilha...
Hoje não vou falar contigo para não ter de dizer-te que não te posso ver. Não quero, não posso, não consigo ter de o dizer outra vez.
Hoje não vou falar contigo para não ter de dizer-te que não te posso ver. Não quero, não posso, não consigo ter de o dizer outra vez.
Hoje posso até destruir tudo o que esteja à vista e roer as unhas da mão esquerda enquanto seguro o telemóvel que vibra na direita, quando me voltas a ligar mas não vou ouvir a tua voz. Não. Não o vou fazer porque não o suportaria.
A minha vontade é correr para ti, e não dizer-te que não! Abraçar-te enquanto me levantas facilmente do chão e me apertas contra o teu peito. Como o farias. Depois irias pousar-me, não me largando ainda, cingindo-me pela cintura. Olharíamos loucos um para o outro, no momento em que as nossas bocas se buscavam, ofegantes, unindo-se finalmente, num beijo tão duro que nada se parece com os que estamos habituados a ver nos filmes românticos de domingo à tarde. Seria um beijo, como nós, louco. Seria bruto, extasiante, desenvergonhado. Ordinário. E acabava.
Nesse momento já não me abraçando. Olhavas-me numa urgência, olhos ávidos de desejo e eu compreenderia de imediato o que se passaria a seguir. Sem espaço ou tempo para pensar, já estaria no novo nos teus braços, nas tuas mãos. Sem saber como, já estaria encostada à parede, enquanto me despias o essencial. Os meus dedos entrelaçavam-se no teu cabelo curto, e apertavam-no com força, puxando-te assim para mim.
Seria uma, duas, três vezes. Teríamos a noite por nossa conta. E o dia. Porque ambos quereríamos sempre mais, e mais. E depois acabava.
Hoje não quero falar contigo. Não quero, não posso, não consigo falar contigo. Não consigo porque teria de dizer-te que não.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Percebes? Bem-vindo então, enlouqueceste.
Pudesse eu não saber de que ferro é feito o amor.
De que veneno é feita a loucura.
Pudesse eu não ter medo de ser e de sermos.
De correr descalça por entre os espinhos da memória.
Pudesse eu dar-te a mão, sentirias o pulsar do meu coração?
Verias o mundo como eu o vejo, ao contrário, onde felizes são aqueles que não pensam, e que se entregam à loucura de olhos fechados, como eu?
Quando os abrem é Verão. É noite de Verão.
Fecha os olhos e deixa-te cair. Por favor. Fizeste o que te pedi? É noite de Verão e o mundo está bem ao contrário? Então já percebes o que quero dizer.
Pudesse eu não saber de que ferro é feito o amor,
e de que veneno é feita a loucura.
Ou não?
De que veneno é feita a loucura.
Pudesse eu não ter medo de ser e de sermos.
De correr descalça por entre os espinhos da memória.
Pudesse eu dar-te a mão, sentirias o pulsar do meu coração?
Verias o mundo como eu o vejo, ao contrário, onde felizes são aqueles que não pensam, e que se entregam à loucura de olhos fechados, como eu?
Quando os abrem é Verão. É noite de Verão.
Fecha os olhos e deixa-te cair. Por favor. Fizeste o que te pedi? É noite de Verão e o mundo está bem ao contrário? Então já percebes o que quero dizer.
Pudesse eu não saber de que ferro é feito o amor,
e de que veneno é feita a loucura.
Ou não?
domingo, 16 de agosto de 2009
Um dia não mais adormeço Leonor
A Leonor hoje confrontou-me. E um confronto nada ele amigável. Deixou-me estendida no chão de pedra frio, num sítio onde nunca tinha estado (como lá fui parar então?). Nem eu pensei que ela fosse tão forte, e afinal, não foram precisas assim tantas palavras para me derrubar. Palavras como facas a arder, a entrar e a sair no meu corpo. Facas para me lembrar do verdadeiro sentido da vida. Facas e palavras das que ferem só porque foram merecidas, daquelas verdades más de ouvir, apetrechadas com baldes de água fria. E tudo isso para nos acordar.
Há quem tenha um grilinho de smoking e cartola, há ainda pessoas normais, com aquilo a que normalmente chamamos de consciência... e eu? Eu tenho uma Leonor.
E agora volto a adormecer.
Há quem tenha um grilinho de smoking e cartola, há ainda pessoas normais, com aquilo a que normalmente chamamos de consciência... e eu? Eu tenho uma Leonor.
E agora volto a adormecer.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
sorry seems to be the hardest word(?)
O perdão é uma palavra algo curiosa. É uma daquelas palavras fortes e intensas, que emanam um poder invejável de abalar as pessoas. E o mais curioso é que este poder não implica acção, pode dar-se na sua excepção. Ora bem, todos cometemos erros (uns mais frequentemente que outros), todos já sofremos com os erros dos outros, e como tal, já todos tivemos de pedir desculpa e já todos recebemos um pedido igual. Todos compreendem portanto, como é difícil quando nos magoam e esperamos, ansiosos, pelo tal pedido, que apesar de não passar de uma mera palavra, vai tornar tudo melhor, algumas vezes até repor por completo o que se estragou. Assim como todos compreendem o quão doloroso é, por vezes, ter de dizer essa palavra. Carrega-la connosco, saber que se calhar aquela era uma boa altura para a dizer, ou não, esperar pela próxima... E ficar assim, sem sequer ter a certeza de que a palavra deve ser usada, isto porque, ás vezes, há coisas que devem permanecer estragadas e não serem recuperadas.
Isto tem um pouco que ver com os arrependimentos.
Lembram-se do buraco no meu peito? Um pedido destes talvez o repusesse. Talvez não, de certeza que sim! E no entanto, continuo a carregar esta palavra. Curioso, não é?
Isto tem um pouco que ver com os arrependimentos.
Lembram-se do buraco no meu peito? Um pedido destes talvez o repusesse. Talvez não, de certeza que sim! E no entanto, continuo a carregar esta palavra. Curioso, não é?
terça-feira, 21 de julho de 2009
Há metáforas fantásticas, não há?
Já faltava pouco para chegar lá. Apressava-se. Sentia o cheiro a pipocas e algodão doce no ar e, abafada ainda, a música fazia-se ouvir. Daquela que só se ouve nas feiras dos contos de fadas.
Só mais um bocadinho. Quanto mais se aproximava, mais depressa corria. Sentia o coração aos pulos, respiração ofegante, todo o corpo em máxima excitação.
Até que começou a abrandar, hesitou, parou. O vento que antes se fazia sentir parou também, tal como todo e qualquer tipo de som que preenchia o mundo. Só se ouvia a ela. E, calma, será? A música recomeçou, ao de leve! A música continua a chamá-la! Leonor retoma a corrida pela porta mágica que se avizinha.
Já faltava pouco para chegar lá, e o melhor de tudo? É que nada disto precisa de fazer sentido.
Só mais um bocadinho. Quanto mais se aproximava, mais depressa corria. Sentia o coração aos pulos, respiração ofegante, todo o corpo em máxima excitação.
Até que começou a abrandar, hesitou, parou. O vento que antes se fazia sentir parou também, tal como todo e qualquer tipo de som que preenchia o mundo. Só se ouvia a ela. E, calma, será? A música recomeçou, ao de leve! A música continua a chamá-la! Leonor retoma a corrida pela porta mágica que se avizinha.
Já faltava pouco para chegar lá, e o melhor de tudo? É que nada disto precisa de fazer sentido.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Consciência ou inconsciência?
Leonor saiu, sem sequer olhar para o negrume que se avizinhava. O vento forte fazia com que o seu cabelo esvoaçasse por todos os lados. Estava húmido o ar, iria chover a qualquer momento. Apertou o casaco até ao pescoço, não pôs o capacete que estava pousado, mesmo a seguir à sua mota, novinha em folha, vermelho escarlate.
Arrancou a toda a velocidade, naquela rua que se perdia no fundo escuro do céu. Sentiu o corpo invadido por uma adrenalina de arrepiar. A sensação de estar a fazer algo completamente imprudente foi a melhor forma que arranjara para não pensar na ferida que ardia no seu peito. As decisões foram tomadas. E o caminho também.
O rosto estava húmido, talvez tivesse começado a chover, talvez Leonor chorasse.
Sabia que devia abrandar, mas era impossível. Nenhum músculo parecia querer obedecer às exigências do cérebro. Ou urgências. Ao invés, acelerava mais. Desejava nunca parar, continuar até deixar a alma para trás. Como que se o temporal e a velocidade a que avançava o pudessem fazer.
E se não acontecesse, talvez tivesse a sorte de ser atingida por um raio.
De repente já não sentia o vento, nem a chuva. Sentia-se ainda a voar, leve, talvez vazia.
Tentou concentrar-se no feroz grito do vento que devia ferir-lhe os tímpanos, e no entanto, já nada se ouvia.
Leonor desejou não acordar.
Arrancou a toda a velocidade, naquela rua que se perdia no fundo escuro do céu. Sentiu o corpo invadido por uma adrenalina de arrepiar. A sensação de estar a fazer algo completamente imprudente foi a melhor forma que arranjara para não pensar na ferida que ardia no seu peito. As decisões foram tomadas. E o caminho também.
O rosto estava húmido, talvez tivesse começado a chover, talvez Leonor chorasse.
Sabia que devia abrandar, mas era impossível. Nenhum músculo parecia querer obedecer às exigências do cérebro. Ou urgências. Ao invés, acelerava mais. Desejava nunca parar, continuar até deixar a alma para trás. Como que se o temporal e a velocidade a que avançava o pudessem fazer.
E se não acontecesse, talvez tivesse a sorte de ser atingida por um raio.
De repente já não sentia o vento, nem a chuva. Sentia-se ainda a voar, leve, talvez vazia.
Tentou concentrar-se no feroz grito do vento que devia ferir-lhe os tímpanos, e no entanto, já nada se ouvia.
Leonor desejou não acordar.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Catastrophe and the cure
Nós seres humanos temos uma capacidade incrível de sobrevivência. Cada um à sua maneira. Há quem esqueça tudo o que dói de lembrar, e vive, fingindo que aquilo nunca aconteceu de facto. Há quem mantenha isso aceso na memória, e o use como arma para próximos desafios, como um velho pescador que exibe orgulhosamente as suas mãos cicatrizadas, que contam histórias de vitórias fantásticas. Há ainda quem se apoie, em pessoas que o permitem. Estendem-nos a mão e ficamos presos a ela, viciados... De tal forma viciados que se essa pessoa se for, o buraco no nosso peito volta a abrir-se, como um eco, vazio, fundo.
Além do motivo que nos deixou inicialmente a sangrar, ficamos com outro que vai doer tanto ou mais que o primeiro, já que vai cair sobre o anterior, e quando uma ferida que ainda não foi cicatrizada é aberta de novo, a recuperação será mais dolorosa.
É injusta muitas vezes esta terceira opção. Injusta e arriscada.
Estamos a usar uma pessoa, sinceramente, mas não deixamos de o fazer. Por mais que tentemos explicar isso a essa pessoa, não conseguimos, tememos que ela nos deixe e não estamos em condições de a perder também. Sentimos uma culpa de 10 toneladas e no entanto somos demasiado fracos para nos privarmos da sua presença. Precisamos dela para preencher o buraco no peito e é só, não conseguimos corresponder o seu sentimento.
É justo? Não! Mas o que fazer? Encher o peito de coragem e deixa-la ir, para que ela própria não fique com o seu buraco no peito?
Então e o nosso buraco?
Além do motivo que nos deixou inicialmente a sangrar, ficamos com outro que vai doer tanto ou mais que o primeiro, já que vai cair sobre o anterior, e quando uma ferida que ainda não foi cicatrizada é aberta de novo, a recuperação será mais dolorosa.
É injusta muitas vezes esta terceira opção. Injusta e arriscada.
Estamos a usar uma pessoa, sinceramente, mas não deixamos de o fazer. Por mais que tentemos explicar isso a essa pessoa, não conseguimos, tememos que ela nos deixe e não estamos em condições de a perder também. Sentimos uma culpa de 10 toneladas e no entanto somos demasiado fracos para nos privarmos da sua presença. Precisamos dela para preencher o buraco no peito e é só, não conseguimos corresponder o seu sentimento.
É justo? Não! Mas o que fazer? Encher o peito de coragem e deixa-la ir, para que ela própria não fique com o seu buraco no peito?
Então e o nosso buraco?
terça-feira, 7 de julho de 2009
Era uma vez o João
O mundo pára neste momento. Sentes-te leve, quase pairas, enquanto sorris por dentro. Estranha sensação esta.
Um calor invade-te o corpo, percorrendo-o de uma ponta à outra, e sentes aquele rubor nas faces.
Ele volta a sorrir e desta vez toca-te no rosto.
O mundo pára, outra vez, neste momento.
O que o torna diferente dos outros?
Um calor invade-te o corpo, percorrendo-o de uma ponta à outra, e sentes aquele rubor nas faces.
Ele volta a sorrir e desta vez toca-te no rosto.
O mundo pára, outra vez, neste momento.
O que o torna diferente dos outros?
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Ilusão
São violinos no telhado, como dizia o outro. Fascinam-te com aquela doce melodia de fechar os olhos e mergulhar por completo em toda ela. Dás por ti sentado no relvado húmido com o orvalho da madrugada que vai chegando, aos poucos. A música percorre todo o teu corpo e respiras fundo, querendo abraçar cada som. Agora deitas-te, mãos cruzadas atrás da nuca e abres os olhos, enquanto contemplas o esplêndido céu infinito. São violinos mágicos, de certo.
Não param, nem tu desejas que parem jamais. Até a aurora chegar, aquele momento deve ser vivido, absorvido, decorado, amado. O vento embala a música, arrasta-a pela erva onde estás, trespassando-te e deixando-te fora de ti.
Não param, nem tu desejas que parem jamais. Até a aurora chegar, aquele momento deve ser vivido, absorvido, decorado, amado. O vento embala a música, arrasta-a pela erva onde estás, trespassando-te e deixando-te fora de ti.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Onde vais?
Onde vais?
Leonor parou de repente, hesitante, olhando finalmente para trás. Estava escuro, o quarto. A única iluminação era a que provinha da vela encarnada, aroma de canela, que ainda ardia na mesinha de cabeceira, vertendo um rasto de cera que solidificava ao longo das gavetas.
Daniel estava deitado, apoiado no braço olhando para Leonor, que tirava nesse momento a mão da maçaneta, não se afastando, no entanto.
Dar uma volta.
Respondeu, desviando o olhar para o chão. Já era suficientemente doloroso imaginar sequer o seu ar, sereno mas vazio, quanto mais olhar naqueles olhos azuis tão profundos... Ele nem se mexeu. Bolas, não estava tão bem a dormir? Tinha ficado horas acordada ao seu lado, decorando cada pormenor daquele maravilhoso ser que a fazia sentir-se tão feliz, tão satisfeita, horas a tomar uma decisão. Partir era cada vez mais difícil.
Avançou novamente, decidida a passar a soleira da porta sem mais olhar para trás. Ele iria compreender. Estava de novo parada, com a mão pousada no puxador. Sentiu Daniel levantar-se, e o coração a bater desenfreadamente com a sua aproximação. Quando sente o seu toque no braço, e depois nas costas e no pescoço, os joelhos estão prestes a ceder e uma avassaladora ânsia de o abraçar atinge-a de tal forma que nem o ar que respira parece ser suficiente.
Volta-se de forma a ficar frente a frente com ele.
Não vás.
Desculpa.
Será que nunca vais conseguir ficar?!
Leonor beijou-o. Como se fosse a primeira, e a última vez. Outra vez.
Partir era cada vez mais difícil e voltar imperativo.
Isto faz algum sentido?
Leonor parou de repente, hesitante, olhando finalmente para trás. Estava escuro, o quarto. A única iluminação era a que provinha da vela encarnada, aroma de canela, que ainda ardia na mesinha de cabeceira, vertendo um rasto de cera que solidificava ao longo das gavetas.
Daniel estava deitado, apoiado no braço olhando para Leonor, que tirava nesse momento a mão da maçaneta, não se afastando, no entanto.
Dar uma volta.
Respondeu, desviando o olhar para o chão. Já era suficientemente doloroso imaginar sequer o seu ar, sereno mas vazio, quanto mais olhar naqueles olhos azuis tão profundos... Ele nem se mexeu. Bolas, não estava tão bem a dormir? Tinha ficado horas acordada ao seu lado, decorando cada pormenor daquele maravilhoso ser que a fazia sentir-se tão feliz, tão satisfeita, horas a tomar uma decisão. Partir era cada vez mais difícil.
Avançou novamente, decidida a passar a soleira da porta sem mais olhar para trás. Ele iria compreender. Estava de novo parada, com a mão pousada no puxador. Sentiu Daniel levantar-se, e o coração a bater desenfreadamente com a sua aproximação. Quando sente o seu toque no braço, e depois nas costas e no pescoço, os joelhos estão prestes a ceder e uma avassaladora ânsia de o abraçar atinge-a de tal forma que nem o ar que respira parece ser suficiente.
Volta-se de forma a ficar frente a frente com ele.
Não vás.
Desculpa.
Será que nunca vais conseguir ficar?!
Leonor beijou-o. Como se fosse a primeira, e a última vez. Outra vez.
Partir era cada vez mais difícil e voltar imperativo.
Isto faz algum sentido?
quarta-feira, 24 de junho de 2009
fica e recita-me as tuas palavras outra vez
Frio.
Silêncio.
Medo.
Pega na tua coragem, levanta-a do chão
Pega na tua força, ergue-a até ao céu que se fecha
sobre ti.
Não deixes que o Frio,
o Silêncio,
o Medo,
se apoderem de ti.
Hoje sentei-me no silêncio. Já faz frio e começo a sentir medo. Recita-me as tuas palavras outra vez. Eu não quero morrer.
Frio.
Silêncio.
Medo.
Pega na minha coragem, levanta-a do chão.
Pega na minha força, ergue-a até ao céu que se fecha
sobre mim.
Não deixes que o Frio,
o Silêncio,
o Medo,
se apoderem de mim.
Continuo sentada no silêncio. Faz frio, sinto muito medo. Recita-me as tuas palavras outra vez. Não me deixes morrer.
Silêncio.
Medo.
Pega na tua coragem, levanta-a do chão
Pega na tua força, ergue-a até ao céu que se fecha
sobre ti.
Não deixes que o Frio,
o Silêncio,
o Medo,
se apoderem de ti.
Hoje sentei-me no silêncio. Já faz frio e começo a sentir medo. Recita-me as tuas palavras outra vez. Eu não quero morrer.
Frio.
Silêncio.
Medo.
Pega na minha coragem, levanta-a do chão.
Pega na minha força, ergue-a até ao céu que se fecha
sobre mim.
Não deixes que o Frio,
o Silêncio,
o Medo,
se apoderem de mim.
Continuo sentada no silêncio. Faz frio, sinto muito medo. Recita-me as tuas palavras outra vez. Não me deixes morrer.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Noches de bohemia
Aquela música de flamenco começava finalmente a soar. Leonor está no alpendre, esticada no chaise long, saboreando o seu vinho do porto. De olhos fechados, inspira como que absorvendo aquela brisa suave de fim de tarde, em toda a sua essência. Com os últimos rastos do sol que se afunda, agora vermelho sangue no mar, com o cheiro que paira à sua volta, aquela calma perfeita. É sempre assim no Verão. E ela sabe exactamente o que sucede esse momento.
Sente o toque das mãos dele nos ombros, que deslizam suavemente por si. Sorri, ainda de olhos fechados aperta a sua mão sobre a dele, que a acaricia na face. Pousa o copo no chão e levanta-se. Nenhum diz nada, porque nada é preciso dizer. Volta a fechar os olhos no momento em que encosta a cabeça no pescoço dele, e o abraça. Ele aperta-a pela cintura, e ela sente-se segura. Conhece esse abraço de cor.
Dançam. E ficam assim, num momento que se prolonga e arrasta por mil fins de tarde como este, mas que é, na verdade, tão efémero e fugaz que Leonor não consegue sequer abrir os olhos, com medo que se dissipe.
Sente o toque das mãos dele nos ombros, que deslizam suavemente por si. Sorri, ainda de olhos fechados aperta a sua mão sobre a dele, que a acaricia na face. Pousa o copo no chão e levanta-se. Nenhum diz nada, porque nada é preciso dizer. Volta a fechar os olhos no momento em que encosta a cabeça no pescoço dele, e o abraça. Ele aperta-a pela cintura, e ela sente-se segura. Conhece esse abraço de cor.
Dançam. E ficam assim, num momento que se prolonga e arrasta por mil fins de tarde como este, mas que é, na verdade, tão efémero e fugaz que Leonor não consegue sequer abrir os olhos, com medo que se dissipe.
domingo, 14 de junho de 2009
introdução, talvez
Inicialmente criei este espacinho para explodir aqui à vontade. Sem que ninguém perceba, sem que me denuncie. Inicialmente nem teria dado continuidade a isto, talvez. Mas é bom ter um pequeno baú de palha, onde guardamos sonhos e memórias, peluches e cartas velhas, planos e bocadinhos da nossa imaginação, onde a realidade e a ficção se separam apenas por uma linha ténue, e que se perde sempre que o baú é aberto.
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