segunda-feira, 29 de junho de 2009

Onde vais?

Onde vais?
Leonor parou de repente, hesitante, olhando finalmente para trás. Estava escuro, o quarto. A única iluminação era a que provinha da vela encarnada, aroma de canela, que ainda ardia na mesinha de cabeceira, vertendo um rasto de cera que solidificava ao longo das gavetas.
Daniel estava deitado, apoiado no braço olhando para Leonor, que tirava nesse momento a mão da maçaneta, não se afastando, no entanto.
Dar uma volta.
Respondeu, desviando o olhar para o chão. Já era suficientemente doloroso imaginar sequer o seu ar, sereno mas vazio, quanto mais olhar naqueles olhos azuis tão profundos... Ele nem se mexeu. Bolas, não estava tão bem a dormir? Tinha ficado horas acordada ao seu lado, decorando cada pormenor daquele maravilhoso ser que a fazia sentir-se tão feliz, tão satisfeita, horas a tomar uma decisão. Partir era cada vez mais difícil.
Avançou novamente, decidida a passar a soleira da porta sem mais olhar para trás. Ele iria compreender. Estava de novo parada, com a mão pousada no puxador. Sentiu Daniel levantar-se, e o coração a bater desenfreadamente com a sua aproximação. Quando sente o seu toque no braço, e depois nas costas e no pescoço, os joelhos estão prestes a ceder e uma avassaladora ânsia de o abraçar atinge-a de tal forma que nem o ar que respira parece ser suficiente.
Volta-se de forma a ficar frente a frente com ele.
Não vás.
Desculpa.
Será que nunca vais conseguir ficar?!
Leonor beijou-o. Como se fosse a primeira, e a última vez. Outra vez.
Partir era cada vez mais difícil e voltar imperativo.
Isto faz algum sentido?

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