Nós seres humanos temos uma capacidade incrível de sobrevivência. Cada um à sua maneira. Há quem esqueça tudo o que dói de lembrar, e vive, fingindo que aquilo nunca aconteceu de facto. Há quem mantenha isso aceso na memória, e o use como arma para próximos desafios, como um velho pescador que exibe orgulhosamente as suas mãos cicatrizadas, que contam histórias de vitórias fantásticas. Há ainda quem se apoie, em pessoas que o permitem. Estendem-nos a mão e ficamos presos a ela, viciados... De tal forma viciados que se essa pessoa se for, o buraco no nosso peito volta a abrir-se, como um eco, vazio, fundo.
Além do motivo que nos deixou inicialmente a sangrar, ficamos com outro que vai doer tanto ou mais que o primeiro, já que vai cair sobre o anterior, e quando uma ferida que ainda não foi cicatrizada é aberta de novo, a recuperação será mais dolorosa.
É injusta muitas vezes esta terceira opção. Injusta e arriscada.
Estamos a usar uma pessoa, sinceramente, mas não deixamos de o fazer. Por mais que tentemos explicar isso a essa pessoa, não conseguimos, tememos que ela nos deixe e não estamos em condições de a perder também. Sentimos uma culpa de 10 toneladas e no entanto somos demasiado fracos para nos privarmos da sua presença. Precisamos dela para preencher o buraco no peito e é só, não conseguimos corresponder o seu sentimento.
É justo? Não! Mas o que fazer? Encher o peito de coragem e deixa-la ir, para que ela própria não fique com o seu buraco no peito?
Então e o nosso buraco?
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