Aquela música de flamenco começava finalmente a soar. Leonor está no alpendre, esticada no chaise long, saboreando o seu vinho do porto. De olhos fechados, inspira como que absorvendo aquela brisa suave de fim de tarde, em toda a sua essência. Com os últimos rastos do sol que se afunda, agora vermelho sangue no mar, com o cheiro que paira à sua volta, aquela calma perfeita. É sempre assim no Verão. E ela sabe exactamente o que sucede esse momento.
Sente o toque das mãos dele nos ombros, que deslizam suavemente por si. Sorri, ainda de olhos fechados aperta a sua mão sobre a dele, que a acaricia na face. Pousa o copo no chão e levanta-se. Nenhum diz nada, porque nada é preciso dizer. Volta a fechar os olhos no momento em que encosta a cabeça no pescoço dele, e o abraça. Ele aperta-a pela cintura, e ela sente-se segura. Conhece esse abraço de cor.
Dançam. E ficam assim, num momento que se prolonga e arrasta por mil fins de tarde como este, mas que é, na verdade, tão efémero e fugaz que Leonor não consegue sequer abrir os olhos, com medo que se dissipe.
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