terça-feira, 6 de outubro de 2009

Uma dança.

Aos poucos chegam as primeiras notas, duma melodia que vai enchendo e preenchendo o espaço à sua volta.
Chega, arrastando consigo paixões e ódios, numa atmosfera que nos sufoca de sentimentos e desejos.
Respiramos fundo e ela possui-nos por completo! Fechamos os olhos, mas é impossível resistir. Franzimos a testa, mordemos o lábio, contraímos cada músculo.
Abrimos os olhos e procuramos, sob a media luz.
Vens na minha direcção. Um drama que se condensa em cheiros e sons. E que se precipita, depois, a cada movimento.
Levantamo-nos e caminhamos em frente, sem desvios de olhar. Um duelo cruel e devastador. Cruzamo-nos e abraçamo-nos brutalmente, a minha mão no teu pescoço, a tua mão na minha cintura. Um desejo voraz agora.
Dançamos num compasso rápido, respiração sustenta. Depois lento, numa expiração ofegante.
Empurras-me à tua frente, numa agressão não física, invades-me, provocas-me, destróis-me. Atiras-me sem piedade para o chão, não me deixando cair no entanto, levantando-me de seguida num só movimento, duro. Ferem-se as vistas de quem nos observa.
Os nossos lábios quase se tocam agora, durante um jogo de pernas. As tuas mãos largam o meu cabelo, percorrendo o meu corpo, segurando-me pelo ventre. Faço com que me largues, num golpe veloz, caminho à tua volta em círculos apertados.
Agarras-me, numa agonia doentia, uma paixão que queima a cada toque, a cada nota mais aguda.
A sala quente fecha-se ao nosso redor.
Sabemos que a música está prestes a acabar.
Aproximamo-nos, respiração com respiração, corpos molhados de suor, quentes de tango, e olhamo-nos fixamente, num desejo e numa raiva ardente, acabando.

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