"I
Ela está sozinha no quarto apagado. A cabeça encostada ao vidro da janela, desfocado pela chuva que nele bate e embaciado da sua respiração. Olha para o quarto. Por mais candeeiros que ligue está tudo escuro, calado, parado. Lá fora o cenário é outro, vê as luzes das casas amontoadas, tudo muito tremido e ela compara-o à sua própria vida. Tremida. Sim, tremida é o melhor termo para definir aquilo que Catherine tem sido e feito. Levanta-se lentamente, a sua mão toca no vidro frio e, neste mesmo ritmo lento, calça-se e veste o primeiro casaco que encontra.
Desce as escadas, pé ante pé, em direcção ao hall de entrada. A casa permanece num transe imóvel e silencioso até ao primeiro sinal de vida. Um ruído crescente marca a presença de alguém na sala de estar a ouvir o noticiário.
Com um “boa-noite” largado no ar, sai para a rua. Também ela apagada. Fria. Desconcertante. A chuva tinha agora parado.
Era uma noite escura, carregada de nuvens ameaçadoras e Cath passeava sozinha. Não levara chave do carro, nem tão pouco guarda-chuva, decidira apanhar o metro sem destino. O frio de Inverno já se fazia sentir, Cath aconchegou o pescoço com a gola da camisola bege, enquanto o vento acariciava os seus longos cabelos castanhos.
Estava completamente perdida. Quando entrou no primeiro metro que chegou, os seus sentidos foram despertados pelo ar saturado, a mistura de vozes desconhecidas e pouco perceptíveis. Sentada entre plenos desconhecidos, não sabia ao certo o que pensar naquele momento. Como pudera ser tão idiota acreditando… Mexe-se desconfortavelmente no lugar onde está sentada e olha lá para fora. As árvores dançam com o vento lá fora. Folhas caem e fogem para longe.
É óbvio que deveria ter pensado que algo assim iria acontecer."
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