Leonor saiu, sem sequer olhar para o negrume que se avizinhava. O vento forte fazia com que o seu cabelo esvoaçasse por todos os lados. Estava húmido o ar, iria chover a qualquer momento. Apertou o casaco até ao pescoço, não pôs o capacete que estava pousado, mesmo a seguir à sua mota, novinha em folha, vermelho escarlate.
Arrancou a toda a velocidade, naquela rua que se perdia no fundo escuro do céu. Sentiu o corpo invadido por uma adrenalina de arrepiar. A sensação de estar a fazer algo completamente imprudente foi a melhor forma que arranjara para não pensar na ferida que ardia no seu peito. As decisões foram tomadas. E o caminho também.
O rosto estava húmido, talvez tivesse começado a chover, talvez Leonor chorasse.
Sabia que devia abrandar, mas era impossível. Nenhum músculo parecia querer obedecer às exigências do cérebro. Ou urgências. Ao invés, acelerava mais. Desejava nunca parar, continuar até deixar a alma para trás. Como que se o temporal e a velocidade a que avançava o pudessem fazer.
E se não acontecesse, talvez tivesse a sorte de ser atingida por um raio.
De repente já não sentia o vento, nem a chuva. Sentia-se ainda a voar, leve, talvez vazia.
Tentou concentrar-se no feroz grito do vento que devia ferir-lhe os tímpanos, e no entanto, já nada se ouvia.
Leonor desejou não acordar.
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