segunda-feira, 26 de outubro de 2009

E se.

Sento-me na berma do passeio, depois de caminhar um pouco no silêncio da noite triste e adormecida. Estou num daqueles momentos em que pensamos em tudo ao mesmo tempo. Parece que peguei num leque infinito de "se's" e o estendi pela rua. Já o perdi de vista e ainda não vou a meio sequer.
Vou avançando no leque que é agora uma longa e infinita passadeira, ao que se vê. Não consigo tirar daqui os pés, avanço, recuo, avanço mais um bocado. Olho para trás, hesitante, mas continuo a avançar. Afinal, ainda há muitos "se's" pela frente.
Vozes, gritos e murmúrios. Rostos. Pedaços de histórias, de momentos. Dias e noites. Memórias e possibilidades.
Sigo por todas elas, fico tonta a cada passo, agora de corrida, cada passo como um salto, por entre flashes de cores psicadélicas. Os olhos fazem um esforço para não se fecharem ao choque, o ar falha, o leque nunca mais acaba...

...

...

...

...

Obrigo-me a parar. Pára! Fecho os olhos, finalmente. Sinto-me segura, acalmo-me, ouço-me respirar, sinto-me histérica. Não há nada à minha volta agora. Nada de estradas longas e leques. Nada de vozes que me perseguem, ou sequer luzes do psicadélico. Começo a sentir-me confortável.
Afinal abri os olhos, afinal acordei.
O leque guardei-o no bolso. Os "se's" devem ser guardados assim, abafados pelas certezas de actos e palavras. Certo?

domingo, 25 de outubro de 2009

Suspiros e espirros.




Suspiros. Suspiros embebidos em sarcasmo. Sarcasmo de uma gargalhada ilusória, perdida e desfeita em partículas tão pequenas que, num abrir e fechar de olhos, já nem se sentem.
É isso que provocas em mim, com este teu súbito ataque de saudades.
Ao fim de um ano, um ano! Achas que podes voltar e fingir que está tudo bem? Não tens a mínima noção do que passei, do que passou?
Não vou deixar que voltes. Sabes o que tenho para ti, agora? Nada. Absolutamente nada, a não ser suspiros de risos.








"Hoje preciso de um pois, preciso de um sim.
O que é que queres de mim, hoje sinto-me assim.

Hoje preciso de um pois, preciso de um sim.
O que é que queres de mim, hoje sinto-me assim.

Ecos de risos, sinfonias de gritos. Como sangue
na barriga de mosquitos.

Hoje preciso de mim.

Mostra o teu jogo. Eu pago para ver." Linda Martini, Quarto 210

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Welcome to Fall.

O tempo frio já se fazia notar. Apertou mais um pouco as golas do casaco contra o pescoço, quando o vento fez o seu cabelo esvoaçar por todos os lados. Procurou a chave com a outra mão, naquela carteira cheia de tralha. Não voltas a sair de casa sem limpar e organizar esta carteira Leonor, pensou para si mesma, encontrando finalmente a chave.
Abriu a porta e entrou. A sua gatinha esperava-a, mesmo na entrada, miando e roçando-se nas pernas de Leonor, que pegou nela, com o braço livre da carteira. Passou na casa-de-banho, ligando o pequeno ventilador, e dirigiu-se para o quarto, pousando a gata em cima da cama, a carteira, o casaco e as botas.
Voltou para a casa de banho, despiu-se, rapidamente, e entrou na banheira. O primeiro jacto de água quente fê-la arrepiar-se de alívio. Um fluxo de calor começava a inunda-la de prazer, e os pés, antes gelados, começavam finalmente a aquecer. Tomou o, que poderá ter sido, mais longo banho de sempre.
Quando acabou, quase como que acordando de um estado de transe, tentou ver-se ao espelho, inutilmente, já que este estava completamente embaciado.
Apreciou o seu reflexo desfocado. Chorou.

É impossível ter a certeza do que quer que seja, planear seja o que for. Há sempre algo que muda, ou algo que nos faz (querer) mudar. E depois, as escolhas que fazemos (ou que nos são permitidas fazer) são a vírgula, o parágrafo ou até mesmo o virar da página, no livro da nossa vida.
A questão é, consegues viver com isso?

Leonor passou a mão no espelho, para se conseguir ver melhor. Sorriu.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Uma dança.

Aos poucos chegam as primeiras notas, duma melodia que vai enchendo e preenchendo o espaço à sua volta.
Chega, arrastando consigo paixões e ódios, numa atmosfera que nos sufoca de sentimentos e desejos.
Respiramos fundo e ela possui-nos por completo! Fechamos os olhos, mas é impossível resistir. Franzimos a testa, mordemos o lábio, contraímos cada músculo.
Abrimos os olhos e procuramos, sob a media luz.
Vens na minha direcção. Um drama que se condensa em cheiros e sons. E que se precipita, depois, a cada movimento.
Levantamo-nos e caminhamos em frente, sem desvios de olhar. Um duelo cruel e devastador. Cruzamo-nos e abraçamo-nos brutalmente, a minha mão no teu pescoço, a tua mão na minha cintura. Um desejo voraz agora.
Dançamos num compasso rápido, respiração sustenta. Depois lento, numa expiração ofegante.
Empurras-me à tua frente, numa agressão não física, invades-me, provocas-me, destróis-me. Atiras-me sem piedade para o chão, não me deixando cair no entanto, levantando-me de seguida num só movimento, duro. Ferem-se as vistas de quem nos observa.
Os nossos lábios quase se tocam agora, durante um jogo de pernas. As tuas mãos largam o meu cabelo, percorrendo o meu corpo, segurando-me pelo ventre. Faço com que me largues, num golpe veloz, caminho à tua volta em círculos apertados.
Agarras-me, numa agonia doentia, uma paixão que queima a cada toque, a cada nota mais aguda.
A sala quente fecha-se ao nosso redor.
Sabemos que a música está prestes a acabar.
Aproximamo-nos, respiração com respiração, corpos molhados de suor, quentes de tango, e olhamo-nos fixamente, num desejo e numa raiva ardente, acabando.