Num tempo de tempo sem tempo talvez haja um tempo.
Para nós.
"with tired eyes, tired minds, tired souls, we slept", EITS
Arde, a vela. Ardo, com ela.
Passa o dia, passa a vida, escrevo, por ela.
Ardem-me os olhos, ardem-me as mãos, queimam os dedos.
Nesta casa, à janela,
eu deixo, arder.
Passa o tempo. Passo-o.
Passa-nos o tempo.
Passa.
Vai (ou vem?).
Passa.
Volta e meia bate aquele choque de realidade. Frio, para acordar.
Bate que ele passa.
Volta e meia, graças a Deus,
o resto do tempo passa. Vai passando sem se notar. Sem se pensar. Passa, só.
Vai passando.
Prefiro assim. Sei que ele não para, passa. Só prefiro não pensar que ele passa.
Melhor, só prefiro não ter de pensar que ele passa.
Viver, enquanto passa, fingindo a terra do nunca, onde não passa.
(se finge que não passa)
(não dói aquando passa)
Deixar, no entanto que volta e meia bata.
Porque o tempo passa.
Não é assim que se passa?
Faço-as.
Aperto os dedos e penso nisso com força.
Faço figas.
Faço-as mas
nem queria isto.
Faço as figas e nem sequer pensei que o queria.
Não queria.
Faço figas pelo que disse a mim mesma que não queria.
Agora, faço figas.
Faço-as.
Faço figas porque quero tanto.
Faço figas.
Queria tanto.
Pois,
então,
faço figas.
(não se faz silêncio)
Faz-se o silêncio.
Passemos a ter parte 1/2/2 que hoje o silêncio não o fez.
Quando acabar ou quando se fizer, talvez o terminemos.
Quiçá...
Só acaba no fim.
(silêncio)
-parte 1/2/?-
Houvesse e havia, na verdade, quem lhe dissesse.
Ela sabia, oh! Sabia, não me fodas.
Tu sabias, Leonor. Sempre soubeste.
Se houvesse quem o pudesse dizer, eras tu.
Era eu.
Sou eu.
Somos a mesma.
Não somos iguais, mas somos a mesma.
Às vezes não somos nenhuma. Às vezes somos todas.
Olha, que barbaridade.
Será a tal insanidade?