Hoje abri o meu baú velho, o que está guardado no sótão porque me ocupava muito espaço no quarto e na fase eu sou jovem, rebelde e in não tenho espaço no quarto para baús com coisas inúteis.
Abri-o com muito cuidado. Há memórias demasiado frágeis, tão frágeis que às vezes se podem quebrar ao mínimo toque.
Não queria que isso acontecesse. Ainda por cima o sótão é tão desprovido de iluminação que alguma delas ainda se perdia por lá, mais para aquele cantinho, aquele mais escuro, onde dormem as aranhas grandes e gordas.
Puxei a débil lâmpada para conseguir, assim, mais luz (eu bem tinha dito que era preciso troca-la). Senti magia saltar dali. O pó que estava no ar parecia cintilar, fazendo-me sorrir, melancólica.
Sentei-me de cócoras e peguei, ainda a medo, numa caixinha de veludo vermelho. Lembrei-me, ainda antes de a abrir, do que se encontrava no seu interior. Sorri novamente.
Não era nada de especial, para vocês, de certeza. Era apenas uma caixa velha, cheia de pequenos papéis a maior parte amarrotada, de bilhetes. Aqueles bilhetes que trocamos com aquele rapaz especial, na aula de físico-química. E aqueles bilhetes que partilhamos com a melhor amiga, a contar dos bilhetes daquele rapaz especial, que fica sempre dois lugares atrás de nós, na aula de físico-química.
Continuei na minha busca de memórias perdidas. Por entre álbuns, brinquedos, cartas, até um ou dois livros, encontrei-me. Algumas das memórias que lá estavam nem tinham consistência física, apenas estavam lá, também embrulhadas em pó do tempo.
Sorri e, antes de fechar, decidi guardar lá mais uma memória. Decidi que cada fase da minha vida, mesmo as menos boas, como esta, ou melhor, como tu, devem ficar lá. Naquele baú velho, cheio de amores, de risos, de lágrimas e guerras. Naquele baú velho, no meu sótão, cheio de memórias.
No meu baú velho, as memórias tiram-te o rancor, e ficam lá, para serem recordadas, na escassa luz daquela lâmpada por trocar, na magia do pó cintilante, com cuidado, para não se partir.
=)
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