quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

E agora, Leonor?

Agora senta-te aí. Sim, aí mesmo, nessa berma. Espera. Quando esses carros passarem, continua à espera. Quando essas luzes se apagarem, espera mais um pouco. Quando o vento acalmar, e tornar a sua melodia silenciosa, espera.
Respira fundo, em breve já acordaste.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A casa branca da portada de madeira velha.

Era aí que ela estava. Feliz. Lá estava ela, naquela casa branca da portada de madeira velha.
A maresia enchia os seus ouvidos com aquela melodia de embalar, e então respirava fundo, num perfeito estado zen. Via-se a si mesma, no alpendre da casa branca da portada de madeira velha, exactamente assim, serena. E sorria.
Sentiu uns passos e o seu coração disparou, mas não se voltou. Esperou. Esperou até que os passos atrás dela parassem.
Pararam. Ela fechou os olhos, e ele abraçou-a nesse momento. O coração começava agora a acalmar, em reconhecimento. Sorria.
Voltou-se agora, e abriu os olhos.

Acordou. E acordou sozinha. A casa branca da portada de madeira velha ficou lá, no sonho do qual acordou. E então, ela levantou-se. Já não podia dormir mais. Não com o sonho da casa branca da portada de madeira velha.
Não podia.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Olá chuva, voltei.

Estou deitada na cama, tenho a varanda completamente aberta. Demasiada preguiça para me levantar e fecha-la, já que chove a potes. Ou demasiado prazer, pois não me lembro da última vez que senti o que estou a sentir neste momento. Conforto, calma, aconchego.

Chove cada vez mais, e eu estou a adorar.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Marionetas.

Ouvia-se o burburinho lá mais à frente. Ou lá mais atrás, nunca se sabe bem. E nesse grande pequeno instante, ela sentiu um trago da adrenalina que começava a manifestar-se por cada centímetro do seu corpo. Ficou surda, perdida no histérico sussurro à sua volta. Cega, na escuridão dos holofotes apontados para si, e para eles. Muda, na imensidão dos seus pensamentos.
A cortina vermelha estava aberta.
E ela exposta. Assim ali. Nua, em todo aquele disfarce.
Talvez tivesse entrado em pânico naqueles infinitos segundos que se passaram, desde o momento em que pisara o palco, e avançara até ali.
Agora parada, hirta. Exposta.
E foi então que observou as linhas que iam dos seus pés, mãos e cabeça, até algures lá para cima.
Esperou que alguém a fizesse mexer novamente, enquanto o burburinho aumentava o volume e as caras se desfocavam entre si, na gigantesca audiência que se estendia por lá fora.
Desconcentrando-se, apercebeu-se que as linhas faziam força, impondo-lhe movimento. Apercebeu-se que, contudo, se mantinha imóvel. Na verdade não lhe apetecia muito caminhar. Não lhe apetecia sequer estar ali assim, e cruzou os braços.
Fez-se silêncio.
Ela franziu o sobrolho, olhando em frente.
Todos a fixavam mudos.
O trago da adrenalina voltou a passar-lhe na boca. E ela riu de soslaio, e bateu o pé. Apercebeu-se de que tinha mais força que as linhas que a seguravam.
Holofotes e olhos postos nela. Não se ouvia uma única respiração.
Ela começou a dançar. Atirou-se para chão. Rodou em si mesma. Saltou.
Soltou-se.
O burburinho retomou em máxima força. Como abelhas zangadas.
Ela riu novamente.
"Esta sou eu. Esta é a minha vida." Disse, num gesto dramático, puxando as linhas. Fez-se novamente silêncio, com o bater seco do suporte de madeira que caía no chão. No momento em que ela abandonava aquele palco.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Velho pescador só.




Madruguei. Dei por mim às voltas na cama, sem conseguir dormir, desistindo. Ainda por cima começava a luz da manhã a entrar pela varanda, e eu sem dormir de maneira nenhuma.
Um súbito impulso apoderou-se de mim e, quase automaticamente, comecei a vestir-me. Silenciosamente saí, levando comigo apenas uns trocos no bolso das calças. O súbito impulso voltou a tomar posse de mim e, naquela madrugada, naquele ímpeto de certa loucura peguei na bicicleta velha, e fui.
Uma estranha liberdade tomou-me por completo. Sorri, enquanto pedalava mais rapidamente, olhando para trás. Sorriso criança. Era exactamente isso. Um intempestivo acto infantil. E soube-me bem.
As insónias na minha cama gigante e tão pequena, pareciam estar a muitas e muitas horas de distância.
E que horas seriam? A manhã já clara não mostrava ainda o sol. É porque ainda não estava na sua hora, mas pouco devia faltar.
Decidi não pensar em nada, esvaziar a minha mente, e deixei-me ir. Na minha bicicleta velha.
O primeiro sinal de reconhecimento foi pelo cheiro, que apesar de não ser exactamente o mesmo, era ele. Parecia mais fresco, mais puro àquela hora da manhã.
Parei na marginal, deixando a bicicleta jazer ali, e eu própria sentei-me.
Observei cada sinal de vida em meu redor, e então detive-me.
Um velho pescador só entrava mar a dentro, a pé. Galocha verde tropa, gabardina aberta a condizer, por cima de umas calças castanhas e uma camisa axadrezada. Vi-o subir as rochas mais altas e, também ele, sentar-se ali.
O velho pescador só não pescava. Olhava o imenso mar à sua frente, numa nostalgia contagiante. Limitava-se a ficar ali assim, transbordando histórias e memórias. Ou seria já a minha imaginação intrometida? Não sei.
Sei que olhando para ele, se percebia os sentimentos que carregava. Uma saudade, uma nostalgia, um aperto. Uma certa lembrança triste, de feliz que foi, em tempos.
Esperava por alguém, talvez, por alguém que já não voltava.
Ou não.
O velho pescador só ficou assim ali, sereno. E eu perdida, adivinhando que emoções carregava ele, naquele olhar gasto e cansado.
Quando me apercebi, o velho pescador só já não estava. Estranhei, pois nem me apercebi da sua retirada. Nem me apercebi sequer de que já não o observava directamente, apenas a nostalgia que trouxera com ele, para a libertar naquele mar sem fim, à sua frente. E então perdi-me eu nela, naquele mar. E ele já se tinha ido.
O sol brilhava impetuoso, lá alto já. Começavam a chegar as pessoas.
É claro que o velho pescador só se tinha ido. Bem antes de isto começar a encher.
E então, eu vim também.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Nas asas de um anjo.




Ouve a sua respiração, lenta, funda. A mão, pousada sobre o peito dele, sobe e desce, acompanhando as inspirações e expirações. Encosta a cabeça, sobre o coração dele, ouvindo-o bater, calmamente. Nesse momento, ele mexe-se e agarra-a com força, ficando depois novamente descansado. Como se, mesmo dormindo, precisasse apenas de a sentir ali. E então ela sentiu-se ali. Ali mesmo. Embrulhada em seda. Quente, protegida, amada.

Fechou os olhos, adormecendo.

sábado, 29 de maio de 2010

5h da manhã.



Acordou. A leve aragem que corria entrava pela porta da varanda, entreaberta. Sem se mexer ainda, olhou em volta, procurando a luz fluorescente do relógio despertador. O da mesinha de cabeceira. 5h da manhã? Pensou coçando o nariz. Espreguiçou e apoiou-se nos braços. Não estava frio nenhum. Não só não estava frio, como a leve aragem que corria a deixava confortável. A luz da manhã que começava, docemente, a tomar o lugar da noite negra, entrava pela varanda, dançando por cada canto do quarto. Parecendo um filme a preto e branco, talvez.
Olhou para o outro lado da cama, pousando a mão morena no lençol branco. Estava já fresco, o lençol amarfanhado.
Olhou de novo pela porta da varanda.
Passou a mão pelo cabelo e levantou-se, aproximando-se.
Cheirava bem, o ar ameno.
Saiu, pisando o chão com o pé descalço.
Ele estava sentado numa das cadeiras de baloiço, a fumar um cigarro e olhava o céu, pensativo. Não tinha dado por ela.
Enquanto o observava, sentiu calor a percorrer-lhe o corpo todo.
Acordei-te?, disse ele, olhando para trás, para ela. Fez que não com a cabeça e dirigiu-se a ele, sentando-se ao seu lado. Olhavam-se. Mais, viam-se.
Pegou ela num cigarro também, acendendo-o, satisfeita.
Sem falar, travavam em diálogo mudo. Daqueles onde se diz tudo sem se dizer nada.
E ela sabia que ia ser sempre assim.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Bocadinhos de céu.

Estendi a mão, fora da janela. Fechei os olhos, após decorar cada pedaço de céu mais à frente. De olhos fechados, estiquei o braço, abri a mão, para depois a fechar. Agarrei um bocadinho de céu. Senti-o nos dedos que o envolviam, ao de leve. Senti o ar e toda a paleta das cores, da aurora ao pôr do sol. E da noite, negra brilhante. Senti o frio da manhã que surge timidamente, iluminando-se devagar com o sol que nasce. E senti o calor que se esvai, ao cair da noite. Senti o cheiro de cada brisa.
E não foi só.
Mas tu não sabes.
Estendi a mão, fora da janela, e abri os olhos. Agarrei um bocadinho mais. Um bocadinho de céu. De um céu que é meu.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A Praia do Destino.

"Ela não dorme com medo de acordar e não o ver a seu lado. (...) pensa, enquanto ele dorme ao seu lado: uma ligação amorosa é a soma de muitas partes - o físico, a sensação de que se é especial, o ciúme, a perda. Não é uma trajectória, uma linha recta, mas antes um baralho de cartas de jogar que foi baralhado, esta coisa encaixando naquela coisa encaixando nesta coisa.
- Agora não podes ir-te embora - diz ela, acordando-o. - Não suportaria voltar a perder-te tão cedo."





Anita Shreve

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Palavras velhas. Palavras novas.

A Leonor revoltou-se. Revolta-te Leonor, revolta-te! A Leonor pegou na folha onde escrevia palavras daquelas que ferem e dobrou-a, como quem faz um avião. A Leonor pegou nesse avião e voou, voou em direcção àquilo a que chamam linha do horizonte. E perdeu-se? Não sei, mas vi-a passar para o lado de lá e não mais voltou. A Leonor soltou-se.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Conta-me histórias.

"Agora, que pousas a cabeça na almofada
e respiras satisfeito, quero o teu amor
sem sentido nem proveito.

Agora, que repousas, lentamente
sigo a curva do teu peito,
procuro o segredo do teu cheiro."

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Time stops.

Há sempre coisas que nos surpreendem. Às vezes são boas surpresas. Aquelas coisas que arrumamos num caixote de papelão para aviar para o sótão, ou até para deitar ao lixo. É o que fazemos quando alguma coisa avaria, ou passa de moda, ou já não serve para nada.
Foi o que tinha acabado de fazer contigo. "Encaixotei-te", inteirinho, e guardei-te no sótão.
Para grande surpresa minha, ao virar costas, o teu caixote abanou. E abanou outra vez. E outra. O teu caixote, que não passava de simples papelão, rasgou-se.
Deixei-me ficar quieta, atenta a cada pormenor. Levantaste-te vigorosamente, sorriso matreiro no canto da boca. Os teus olhos não eram os mesmos. Agora transparentes, deixando-me ver além do que aparentam. Deixando-me ver-te. A voz não era também a mesma. A tua voz mudou. Mudou a voz. E mudaram os olhos, que não eram os mesmos.
Fiquei assim, enquanto vinhas na minha direcção. Senti-me impossibilitada de me mexer, de sequer proferir palavra que fosse.
E então dei por mim a pensar se não estaria a sonhar...
Aproximaste-te e tocaste-me na mão, para depois lhe pegares. O teu toque não era o mesmo.
Deixei-me ir, e o abraço não era o mesmo, o beijo não era o mesmo, o sexo não era o mesmo.
Inspirei fundo. O cheiro era o mesmo. O mesmo perfume atordoante. O teu perfume. Sim, o cheiro era o mesmo... Mas então...?
Lembrei-me de abrir os olhos. Eras tu que ali estavas. Inteiro, belo, sorriso matreiro no canto da boca, agora dormindo. Respirando no meu rosto. Sereno, adormecido. Eras tu, e eras o mesmo.
Mas não eras tu, não eras o mesmo.
Deixei-me ficar, deixei-me levar.
Há coisas que nos surpreendem. Às vezes são boas surpresas.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Não me acordes agora.



Sussurros. Ouço-os. E vejo-te, nessa dança incessante.
Indago-me... não te cansas?
Vejo-te assim, como um louco, nessa mesma dança que te desgasta, a pouco e pouco, à minha frente. E o sussurro, ouço-o. É estranho porque a tua expressão demonstra um grito ensurdecedor, forma um rugido feroz e os teus olhos mostram uma certa, frustração, será? Mas ao que eu ouço, tudo não passa de um contínuo sussurro. Diria até, contínuo e doce sussurro.
Mantenho-me assim, e observo-te nessa luta contra mim, ou para mim. Penso que gostaria de perceber o que dizes, mas perco-me no melodioso sussurro que me derrete, e que me entristece. Deveria dizer-te que estou acordada que consigo ver-te e, apesar de tudo, ouvir-te. Mas permaneço quieta.
És como um filme e eu, atenciosa telespectadora, aguardo, quieta e calada pelo teu final. Pelo final dessa curiosa dança que me inquieta, mas que me anestesia.
Não vês que te vejo? Não percebes que te ouço mas que não te quero ouvir?
A tua dança é uma surpresa. A tua presença é uma surpresa. Qualquer acção da minha parte pode termina-la mais rapidamente. Esquecer o sussurro que me embala e ouvir as palavras que bradas desesperadamente, será como quando alguém nos conta o final do filme, e isso estraga sempre tudo.
Vou ficar exactamente assim, desculpa, pois não sei como te dizer que te vejo. E que te ouço. Vou aguardar até ao final do espectáculo. Talvez te canses. Talvez me canse.