quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Lifeboat.
Estava forte, a maré. Demasiado forte. Leonor tentava, em vão, remar contra a corrente, cada vez mais agressiva e zangada. O céu parecia cada vez mais baixo, tão baixo que ela sentia as nuvens rasarem-lhe a nuca. A bruma densa como breu toldava-lhe a visão, já de si fraca, não fosse Leonor míope.
Estava frio, daquele frio que nos gela o coração. E os braços queixavam-se de dor e cansaço, tinha de parar, algures, e não conseguia.
Então Leonor acordou. O cansaço mantém-se...
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Nobody knows it.
Esta é a vantagem dos segredos. Ninguém sabe, ninguém vê, ninguém ouve, ninguém percebe.
Às vezes não é por ser grave, ou sequer por alguém vir a saber da sua existência... Mas porque até lá somos completa e totalmente livres. Podemos dizer, fazer, não dizer, não fazer. Podemos manipula-lo como bem entendermos.
Quando temos o nosso segredo o mundo parece demasiado pequeno, é sempre noite de Verão, ou fim de tarde de Outono. É o que quisermos.
Falo daqueles segredos bons de ter, daqueles que são segredos por pura e simplesmente tornarem um facto num conto de fadas, e então queremos guarda-lo só para nós.
Estou a exagerar, às vezes tenho essa tendência Leonoresca...
Mas não, não estou a exagerar.
Se calhar é porque é raro. Parece que encontrei uma jóia preciosa (a última que encontrei revelou-se afinal um pedregulho cheio de musgo), e não sei bem o que fazer com ela. Para já vai ficar assim, depois logo se vê.
Gostava de vos dizer o quão ridícula é a importância que estou a dar a isto, mas não posso, é segredo!
Às vezes não é por ser grave, ou sequer por alguém vir a saber da sua existência... Mas porque até lá somos completa e totalmente livres. Podemos dizer, fazer, não dizer, não fazer. Podemos manipula-lo como bem entendermos.
Quando temos o nosso segredo o mundo parece demasiado pequeno, é sempre noite de Verão, ou fim de tarde de Outono. É o que quisermos.
Falo daqueles segredos bons de ter, daqueles que são segredos por pura e simplesmente tornarem um facto num conto de fadas, e então queremos guarda-lo só para nós.
Estou a exagerar, às vezes tenho essa tendência Leonoresca...
Mas não, não estou a exagerar.
Se calhar é porque é raro. Parece que encontrei uma jóia preciosa (a última que encontrei revelou-se afinal um pedregulho cheio de musgo), e não sei bem o que fazer com ela. Para já vai ficar assim, depois logo se vê.
Gostava de vos dizer o quão ridícula é a importância que estou a dar a isto, mas não posso, é segredo!
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Saudade, nostalgia, melancolia.
Hoje foi bem estranho. Foi um daqueles dias em que todo e qualquer imprevisto parece planeado. Foi estranho, pronto! Senti o cérebro como o meu portátil ao ligar: a demorar horas a processar a simples informação de abrir a página da Internet.
Foi rápido, foi simples. Foi como um veneno injectado, só quando me tentei mexer é que senti os músculos paralisados. E depois aquela sensação amarga, áspera. E depois passou.
Há bocado fui para a varanda. Deixei a porta semi-aberta, para poder ouvir Explosions In The Sky, que deixei a dar no portátil (estava na The Moon Is Down, linda!). Sentei-me na cadeira de palha que lá tenho, acendi o cigarro e recostei-me, como que afogando-me na cadeira e no ar da noite, com aquele trago de fumo e de "explosions".
A sensação amarga avassalou-me, senti uma vontade de me mexer imediatamente, tirar aquela incómoda sensação de mim e no entanto o corpo estava demasiado pesado para isso, demasiado teimoso. Completamente derrotado e rendido. Não dei luta sequer, limitei-me a continuar tal como estava, levando mecanicamente o cigarro à boca, a deixar-me invadir pela música e pelas memórias de ti.
Era essa a estranha sensação. Era saudade, era nostalgia, era melancolia. Era a minha prudente impotência perante ti.
Hoje senti, especialmente, falta das tuas histórias e planos, do teu riso, do teu abrigo.
Apaguei o cigarro e entrei. Deixei-me ficar no escuro.
Foi rápido, foi simples. Foi como um veneno injectado, só quando me tentei mexer é que senti os músculos paralisados. E depois aquela sensação amarga, áspera. E depois passou.
Há bocado fui para a varanda. Deixei a porta semi-aberta, para poder ouvir Explosions In The Sky, que deixei a dar no portátil (estava na The Moon Is Down, linda!). Sentei-me na cadeira de palha que lá tenho, acendi o cigarro e recostei-me, como que afogando-me na cadeira e no ar da noite, com aquele trago de fumo e de "explosions".
A sensação amarga avassalou-me, senti uma vontade de me mexer imediatamente, tirar aquela incómoda sensação de mim e no entanto o corpo estava demasiado pesado para isso, demasiado teimoso. Completamente derrotado e rendido. Não dei luta sequer, limitei-me a continuar tal como estava, levando mecanicamente o cigarro à boca, a deixar-me invadir pela música e pelas memórias de ti.
Era essa a estranha sensação. Era saudade, era nostalgia, era melancolia. Era a minha prudente impotência perante ti.
Hoje senti, especialmente, falta das tuas histórias e planos, do teu riso, do teu abrigo.
Apaguei o cigarro e entrei. Deixei-me ficar no escuro.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Quem tem medo do escuro?
O medo. Há vários medos porque há várias pessoas. Todos eles diferem, mas todos eles tocam em alguém em comum.
Há um em especial que desperta a minha curiosidade... Um que me é comum. O medo do escuro.
Caminhamos por nossa casa milhões de vezes, até o podemos fazer de olhos fechados porque a conhecemos de cor. Sabemos perfeitamente que a seguir ao sofá está aquele vaso castanho grande, e que a casa de banho fica à direita, e a cozinha ao fundo do corredor.
Mas à noite... À noite tudo está calado e apagado. Tudo parece maior e mais pequeno. Quando cai a noite, que cobre tudo com aquele manto negro, tudo parece diferente, tudo parece fora do sítio.
É irracional sentir medo de algo assim.
Cada silêncio desperta um a um, cada sentido. E a cada som, explodimos.
Às vezes corremos, pensando que a escuridão não custa tanto assim, escondemo-nos e fechamos os olhos com força. Pegamos no mp3, pomos música nas alturas e deixamo-nos estar, até o medo passar. Escondemo-nos na nossa escuridão, para fugir a escuridão da nossa casa. (ou aos aliens daquele filme de terror que não deviamos ter visto sozinhos)
É de facto um medo estranho... é que, às vezes, é só ligar a luz e está tudo como sempre esteve.
(sim, mas eu continuo com medo do escuro)
Há um em especial que desperta a minha curiosidade... Um que me é comum. O medo do escuro.
Caminhamos por nossa casa milhões de vezes, até o podemos fazer de olhos fechados porque a conhecemos de cor. Sabemos perfeitamente que a seguir ao sofá está aquele vaso castanho grande, e que a casa de banho fica à direita, e a cozinha ao fundo do corredor.
Mas à noite... À noite tudo está calado e apagado. Tudo parece maior e mais pequeno. Quando cai a noite, que cobre tudo com aquele manto negro, tudo parece diferente, tudo parece fora do sítio.
É irracional sentir medo de algo assim.
Cada silêncio desperta um a um, cada sentido. E a cada som, explodimos.
Às vezes corremos, pensando que a escuridão não custa tanto assim, escondemo-nos e fechamos os olhos com força. Pegamos no mp3, pomos música nas alturas e deixamo-nos estar, até o medo passar. Escondemo-nos na nossa escuridão, para fugir a escuridão da nossa casa. (ou aos aliens daquele filme de terror que não deviamos ter visto sozinhos)
É de facto um medo estranho... é que, às vezes, é só ligar a luz e está tudo como sempre esteve.
(sim, mas eu continuo com medo do escuro)
domingo, 6 de setembro de 2009
São coisas.
Não consigo. Não sei porquê, mas deixei de conseguir.
Houve uma altura que decidi saltar de pára-quedas. Comecei e nunca mais consegui parar. Era a melhor sensação do mundo esticar o pé e puf, nada, a não ser uma grande queda. Lançar-me de cabeça, de braços abertos, às cambalhotas... A partir do momento em que largava os pés e me lançava era sempre uma nova queda, um novo rodízio de sensações e paixões, até que o chão se aproximava e era altura de abrir o pára-quedas. As sensações ficavam suspensas, enquanto eu caía, suavemente, para pôr de novo os pés no chão.
Ficava sempre um bocado lá com os pés. Nalguns sítios mais tempo do que nos outros, a saborear o salto e a queda, (quase) sempre melhor que o anterior. Sim, ficava por lá um bocado. Mas não havia problema, ás vezes é preciso deixar os pés um bocado no chão, só um bocado, até porque no dia a seguir já lá estava em cima outra vez, pronta para saltar.
Não havia problema. Lá está, havia.
Não estou a conseguir saltar. Estou a dar em maluca aqui parada, a segurar com força as alças do pára-quedas, sem conseguir pôr o pé em falso.
Estive demasiado tempo ali em baixo, com os pés assentes naquele sítio. E se agora o meu pára-quedas falhar? E se o meu pára-quedas não me fizer abrandar e ficar estatelada no chão, para sempre?
Não consigo, hoje não consigo. Hoje vou aterrar aqui, onde estava, logo se vê quando volto a saltar.
Houve uma altura que decidi saltar de pára-quedas. Comecei e nunca mais consegui parar. Era a melhor sensação do mundo esticar o pé e puf, nada, a não ser uma grande queda. Lançar-me de cabeça, de braços abertos, às cambalhotas... A partir do momento em que largava os pés e me lançava era sempre uma nova queda, um novo rodízio de sensações e paixões, até que o chão se aproximava e era altura de abrir o pára-quedas. As sensações ficavam suspensas, enquanto eu caía, suavemente, para pôr de novo os pés no chão.
Ficava sempre um bocado lá com os pés. Nalguns sítios mais tempo do que nos outros, a saborear o salto e a queda, (quase) sempre melhor que o anterior. Sim, ficava por lá um bocado. Mas não havia problema, ás vezes é preciso deixar os pés um bocado no chão, só um bocado, até porque no dia a seguir já lá estava em cima outra vez, pronta para saltar.
Não havia problema. Lá está, havia.
Não estou a conseguir saltar. Estou a dar em maluca aqui parada, a segurar com força as alças do pára-quedas, sem conseguir pôr o pé em falso.
Estive demasiado tempo ali em baixo, com os pés assentes naquele sítio. E se agora o meu pára-quedas falhar? E se o meu pára-quedas não me fizer abrandar e ficar estatelada no chão, para sempre?
Não consigo, hoje não consigo. Hoje vou aterrar aqui, onde estava, logo se vê quando volto a saltar.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Hoje.
Hoje abri o meu baú velho, o que está guardado no sótão porque me ocupava muito espaço no quarto e na fase eu sou jovem, rebelde e in não tenho espaço no quarto para baús com coisas inúteis.
Abri-o com muito cuidado. Há memórias demasiado frágeis, tão frágeis que às vezes se podem quebrar ao mínimo toque.
Não queria que isso acontecesse. Ainda por cima o sótão é tão desprovido de iluminação que alguma delas ainda se perdia por lá, mais para aquele cantinho, aquele mais escuro, onde dormem as aranhas grandes e gordas.
Puxei a débil lâmpada para conseguir, assim, mais luz (eu bem tinha dito que era preciso troca-la). Senti magia saltar dali. O pó que estava no ar parecia cintilar, fazendo-me sorrir, melancólica.
Sentei-me de cócoras e peguei, ainda a medo, numa caixinha de veludo vermelho. Lembrei-me, ainda antes de a abrir, do que se encontrava no seu interior. Sorri novamente.
Não era nada de especial, para vocês, de certeza. Era apenas uma caixa velha, cheia de pequenos papéis a maior parte amarrotada, de bilhetes. Aqueles bilhetes que trocamos com aquele rapaz especial, na aula de físico-química. E aqueles bilhetes que partilhamos com a melhor amiga, a contar dos bilhetes daquele rapaz especial, que fica sempre dois lugares atrás de nós, na aula de físico-química.
Continuei na minha busca de memórias perdidas. Por entre álbuns, brinquedos, cartas, até um ou dois livros, encontrei-me. Algumas das memórias que lá estavam nem tinham consistência física, apenas estavam lá, também embrulhadas em pó do tempo.
Sorri e, antes de fechar, decidi guardar lá mais uma memória. Decidi que cada fase da minha vida, mesmo as menos boas, como esta, ou melhor, como tu, devem ficar lá. Naquele baú velho, cheio de amores, de risos, de lágrimas e guerras. Naquele baú velho, no meu sótão, cheio de memórias.
No meu baú velho, as memórias tiram-te o rancor, e ficam lá, para serem recordadas, na escassa luz daquela lâmpada por trocar, na magia do pó cintilante, com cuidado, para não se partir.
Abri-o com muito cuidado. Há memórias demasiado frágeis, tão frágeis que às vezes se podem quebrar ao mínimo toque.
Não queria que isso acontecesse. Ainda por cima o sótão é tão desprovido de iluminação que alguma delas ainda se perdia por lá, mais para aquele cantinho, aquele mais escuro, onde dormem as aranhas grandes e gordas.
Puxei a débil lâmpada para conseguir, assim, mais luz (eu bem tinha dito que era preciso troca-la). Senti magia saltar dali. O pó que estava no ar parecia cintilar, fazendo-me sorrir, melancólica.
Sentei-me de cócoras e peguei, ainda a medo, numa caixinha de veludo vermelho. Lembrei-me, ainda antes de a abrir, do que se encontrava no seu interior. Sorri novamente.
Não era nada de especial, para vocês, de certeza. Era apenas uma caixa velha, cheia de pequenos papéis a maior parte amarrotada, de bilhetes. Aqueles bilhetes que trocamos com aquele rapaz especial, na aula de físico-química. E aqueles bilhetes que partilhamos com a melhor amiga, a contar dos bilhetes daquele rapaz especial, que fica sempre dois lugares atrás de nós, na aula de físico-química.
Continuei na minha busca de memórias perdidas. Por entre álbuns, brinquedos, cartas, até um ou dois livros, encontrei-me. Algumas das memórias que lá estavam nem tinham consistência física, apenas estavam lá, também embrulhadas em pó do tempo.
Sorri e, antes de fechar, decidi guardar lá mais uma memória. Decidi que cada fase da minha vida, mesmo as menos boas, como esta, ou melhor, como tu, devem ficar lá. Naquele baú velho, cheio de amores, de risos, de lágrimas e guerras. Naquele baú velho, no meu sótão, cheio de memórias.
No meu baú velho, as memórias tiram-te o rancor, e ficam lá, para serem recordadas, na escassa luz daquela lâmpada por trocar, na magia do pó cintilante, com cuidado, para não se partir.
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