sábado, 29 de maio de 2010
5h da manhã.
Acordou. A leve aragem que corria entrava pela porta da varanda, entreaberta. Sem se mexer ainda, olhou em volta, procurando a luz fluorescente do relógio despertador. O da mesinha de cabeceira. 5h da manhã? Pensou coçando o nariz. Espreguiçou e apoiou-se nos braços. Não estava frio nenhum. Não só não estava frio, como a leve aragem que corria a deixava confortável. A luz da manhã que começava, docemente, a tomar o lugar da noite negra, entrava pela varanda, dançando por cada canto do quarto. Parecendo um filme a preto e branco, talvez.
Olhou para o outro lado da cama, pousando a mão morena no lençol branco. Estava já fresco, o lençol amarfanhado.
Olhou de novo pela porta da varanda.
Passou a mão pelo cabelo e levantou-se, aproximando-se.
Cheirava bem, o ar ameno.
Saiu, pisando o chão com o pé descalço.
Ele estava sentado numa das cadeiras de baloiço, a fumar um cigarro e olhava o céu, pensativo. Não tinha dado por ela.
Enquanto o observava, sentiu calor a percorrer-lhe o corpo todo.
Acordei-te?, disse ele, olhando para trás, para ela. Fez que não com a cabeça e dirigiu-se a ele, sentando-se ao seu lado. Olhavam-se. Mais, viam-se.
Pegou ela num cigarro também, acendendo-o, satisfeita.
Sem falar, travavam em diálogo mudo. Daqueles onde se diz tudo sem se dizer nada.
E ela sabia que ia ser sempre assim.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Bocadinhos de céu.
Estendi a mão, fora da janela. Fechei os olhos, após decorar cada pedaço de céu mais à frente. De olhos fechados, estiquei o braço, abri a mão, para depois a fechar. Agarrei um bocadinho de céu. Senti-o nos dedos que o envolviam, ao de leve. Senti o ar e toda a paleta das cores, da aurora ao pôr do sol. E da noite, negra brilhante. Senti o frio da manhã que surge timidamente, iluminando-se devagar com o sol que nasce. E senti o calor que se esvai, ao cair da noite. Senti o cheiro de cada brisa.
E não foi só.
Mas tu não sabes.
Estendi a mão, fora da janela, e abri os olhos. Agarrei um bocadinho mais. Um bocadinho de céu. De um céu que é meu.
E não foi só.
Mas tu não sabes.
Estendi a mão, fora da janela, e abri os olhos. Agarrei um bocadinho mais. Um bocadinho de céu. De um céu que é meu.
terça-feira, 18 de maio de 2010
A Praia do Destino.
"Ela não dorme com medo de acordar e não o ver a seu lado. (...) pensa, enquanto ele dorme ao seu lado: uma ligação amorosa é a soma de muitas partes - o físico, a sensação de que se é especial, o ciúme, a perda. Não é uma trajectória, uma linha recta, mas antes um baralho de cartas de jogar que foi baralhado, esta coisa encaixando naquela coisa encaixando nesta coisa.
- Agora não podes ir-te embora - diz ela, acordando-o. - Não suportaria voltar a perder-te tão cedo."
Anita Shreve
- Agora não podes ir-te embora - diz ela, acordando-o. - Não suportaria voltar a perder-te tão cedo."
Anita Shreve
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