Onde vais?
Leonor parou de repente, hesitante, olhando finalmente para trás. Estava escuro, o quarto. A única iluminação era a que provinha da vela encarnada, aroma de canela, que ainda ardia na mesinha de cabeceira, vertendo um rasto de cera que solidificava ao longo das gavetas.
Daniel estava deitado, apoiado no braço olhando para Leonor, que tirava nesse momento a mão da maçaneta, não se afastando, no entanto.
Dar uma volta.
Respondeu, desviando o olhar para o chão. Já era suficientemente doloroso imaginar sequer o seu ar, sereno mas vazio, quanto mais olhar naqueles olhos azuis tão profundos... Ele nem se mexeu. Bolas, não estava tão bem a dormir? Tinha ficado horas acordada ao seu lado, decorando cada pormenor daquele maravilhoso ser que a fazia sentir-se tão feliz, tão satisfeita, horas a tomar uma decisão. Partir era cada vez mais difícil.
Avançou novamente, decidida a passar a soleira da porta sem mais olhar para trás. Ele iria compreender. Estava de novo parada, com a mão pousada no puxador. Sentiu Daniel levantar-se, e o coração a bater desenfreadamente com a sua aproximação. Quando sente o seu toque no braço, e depois nas costas e no pescoço, os joelhos estão prestes a ceder e uma avassaladora ânsia de o abraçar atinge-a de tal forma que nem o ar que respira parece ser suficiente.
Volta-se de forma a ficar frente a frente com ele.
Não vás.
Desculpa.
Será que nunca vais conseguir ficar?!
Leonor beijou-o. Como se fosse a primeira, e a última vez. Outra vez.
Partir era cada vez mais difícil e voltar imperativo.
Isto faz algum sentido?
segunda-feira, 29 de junho de 2009
quarta-feira, 24 de junho de 2009
fica e recita-me as tuas palavras outra vez
Frio.
Silêncio.
Medo.
Pega na tua coragem, levanta-a do chão
Pega na tua força, ergue-a até ao céu que se fecha
sobre ti.
Não deixes que o Frio,
o Silêncio,
o Medo,
se apoderem de ti.
Hoje sentei-me no silêncio. Já faz frio e começo a sentir medo. Recita-me as tuas palavras outra vez. Eu não quero morrer.
Frio.
Silêncio.
Medo.
Pega na minha coragem, levanta-a do chão.
Pega na minha força, ergue-a até ao céu que se fecha
sobre mim.
Não deixes que o Frio,
o Silêncio,
o Medo,
se apoderem de mim.
Continuo sentada no silêncio. Faz frio, sinto muito medo. Recita-me as tuas palavras outra vez. Não me deixes morrer.
Silêncio.
Medo.
Pega na tua coragem, levanta-a do chão
Pega na tua força, ergue-a até ao céu que se fecha
sobre ti.
Não deixes que o Frio,
o Silêncio,
o Medo,
se apoderem de ti.
Hoje sentei-me no silêncio. Já faz frio e começo a sentir medo. Recita-me as tuas palavras outra vez. Eu não quero morrer.
Frio.
Silêncio.
Medo.
Pega na minha coragem, levanta-a do chão.
Pega na minha força, ergue-a até ao céu que se fecha
sobre mim.
Não deixes que o Frio,
o Silêncio,
o Medo,
se apoderem de mim.
Continuo sentada no silêncio. Faz frio, sinto muito medo. Recita-me as tuas palavras outra vez. Não me deixes morrer.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Noches de bohemia
Aquela música de flamenco começava finalmente a soar. Leonor está no alpendre, esticada no chaise long, saboreando o seu vinho do porto. De olhos fechados, inspira como que absorvendo aquela brisa suave de fim de tarde, em toda a sua essência. Com os últimos rastos do sol que se afunda, agora vermelho sangue no mar, com o cheiro que paira à sua volta, aquela calma perfeita. É sempre assim no Verão. E ela sabe exactamente o que sucede esse momento.
Sente o toque das mãos dele nos ombros, que deslizam suavemente por si. Sorri, ainda de olhos fechados aperta a sua mão sobre a dele, que a acaricia na face. Pousa o copo no chão e levanta-se. Nenhum diz nada, porque nada é preciso dizer. Volta a fechar os olhos no momento em que encosta a cabeça no pescoço dele, e o abraça. Ele aperta-a pela cintura, e ela sente-se segura. Conhece esse abraço de cor.
Dançam. E ficam assim, num momento que se prolonga e arrasta por mil fins de tarde como este, mas que é, na verdade, tão efémero e fugaz que Leonor não consegue sequer abrir os olhos, com medo que se dissipe.
Sente o toque das mãos dele nos ombros, que deslizam suavemente por si. Sorri, ainda de olhos fechados aperta a sua mão sobre a dele, que a acaricia na face. Pousa o copo no chão e levanta-se. Nenhum diz nada, porque nada é preciso dizer. Volta a fechar os olhos no momento em que encosta a cabeça no pescoço dele, e o abraça. Ele aperta-a pela cintura, e ela sente-se segura. Conhece esse abraço de cor.
Dançam. E ficam assim, num momento que se prolonga e arrasta por mil fins de tarde como este, mas que é, na verdade, tão efémero e fugaz que Leonor não consegue sequer abrir os olhos, com medo que se dissipe.
domingo, 14 de junho de 2009
introdução, talvez
Inicialmente criei este espacinho para explodir aqui à vontade. Sem que ninguém perceba, sem que me denuncie. Inicialmente nem teria dado continuidade a isto, talvez. Mas é bom ter um pequeno baú de palha, onde guardamos sonhos e memórias, peluches e cartas velhas, planos e bocadinhos da nossa imaginação, onde a realidade e a ficção se separam apenas por uma linha ténue, e que se perde sempre que o baú é aberto.
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