quinta-feira, 8 de julho de 2010

Marionetas.

Ouvia-se o burburinho lá mais à frente. Ou lá mais atrás, nunca se sabe bem. E nesse grande pequeno instante, ela sentiu um trago da adrenalina que começava a manifestar-se por cada centímetro do seu corpo. Ficou surda, perdida no histérico sussurro à sua volta. Cega, na escuridão dos holofotes apontados para si, e para eles. Muda, na imensidão dos seus pensamentos.
A cortina vermelha estava aberta.
E ela exposta. Assim ali. Nua, em todo aquele disfarce.
Talvez tivesse entrado em pânico naqueles infinitos segundos que se passaram, desde o momento em que pisara o palco, e avançara até ali.
Agora parada, hirta. Exposta.
E foi então que observou as linhas que iam dos seus pés, mãos e cabeça, até algures lá para cima.
Esperou que alguém a fizesse mexer novamente, enquanto o burburinho aumentava o volume e as caras se desfocavam entre si, na gigantesca audiência que se estendia por lá fora.
Desconcentrando-se, apercebeu-se que as linhas faziam força, impondo-lhe movimento. Apercebeu-se que, contudo, se mantinha imóvel. Na verdade não lhe apetecia muito caminhar. Não lhe apetecia sequer estar ali assim, e cruzou os braços.
Fez-se silêncio.
Ela franziu o sobrolho, olhando em frente.
Todos a fixavam mudos.
O trago da adrenalina voltou a passar-lhe na boca. E ela riu de soslaio, e bateu o pé. Apercebeu-se de que tinha mais força que as linhas que a seguravam.
Holofotes e olhos postos nela. Não se ouvia uma única respiração.
Ela começou a dançar. Atirou-se para chão. Rodou em si mesma. Saltou.
Soltou-se.
O burburinho retomou em máxima força. Como abelhas zangadas.
Ela riu novamente.
"Esta sou eu. Esta é a minha vida." Disse, num gesto dramático, puxando as linhas. Fez-se novamente silêncio, com o bater seco do suporte de madeira que caía no chão. No momento em que ela abandonava aquele palco.

1 comentário:

  1. wow!!! muito bom :)

    um dia posto a minha versão de marionetas... estou só à espera do momento ideal para postar :)

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