Há sempre coisas que nos surpreendem. Às vezes são boas surpresas. Aquelas coisas que arrumamos num caixote de papelão para aviar para o sótão, ou até para deitar ao lixo. É o que fazemos quando alguma coisa avaria, ou passa de moda, ou já não serve para nada.
Foi o que tinha acabado de fazer contigo. "Encaixotei-te", inteirinho, e guardei-te no sótão.
Para grande surpresa minha, ao virar costas, o teu caixote abanou. E abanou outra vez. E outra. O teu caixote, que não passava de simples papelão, rasgou-se.
Deixei-me ficar quieta, atenta a cada pormenor. Levantaste-te vigorosamente, sorriso matreiro no canto da boca. Os teus olhos não eram os mesmos. Agora transparentes, deixando-me ver além do que aparentam. Deixando-me ver-te. A voz não era também a mesma. A tua voz mudou. Mudou a voz. E mudaram os olhos, que não eram os mesmos.
Fiquei assim, enquanto vinhas na minha direcção. Senti-me impossibilitada de me mexer, de sequer proferir palavra que fosse.
E então dei por mim a pensar se não estaria a sonhar...
Aproximaste-te e tocaste-me na mão, para depois lhe pegares. O teu toque não era o mesmo.
Deixei-me ir, e o abraço não era o mesmo, o beijo não era o mesmo, o sexo não era o mesmo.
Inspirei fundo. O cheiro era o mesmo. O mesmo perfume atordoante. O teu perfume. Sim, o cheiro era o mesmo... Mas então...?
Lembrei-me de abrir os olhos. Eras tu que ali estavas. Inteiro, belo, sorriso matreiro no canto da boca, agora dormindo. Respirando no meu rosto. Sereno, adormecido. Eras tu, e eras o mesmo.
Mas não eras tu, não eras o mesmo.
Deixei-me ficar, deixei-me levar.
Há coisas que nos surpreendem. Às vezes são boas surpresas.
Há coisas que nos surpreendem, indeed
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