Imóvel. Leonor está tão quieta que tudo à volta parece mover-se, timidamente, porque se sabe que os objectos não andam, isso seria de estranhar.
Uma sala circular que em vez de amplas janelas em redor possui espelhos. Altos, escuros, velhos.
Reflexos de reflexos, mostram a Leonor ou uma Leonor. Uma Leonor que é a Leonor mas que não conhece a Leonor. Pelo menos não a Leonor que observa, pelos espelhos. Nos reflexos dos reflexos.
Uma lágrima cai, ansiosa, pelo rosto da Leonor (a do espelho?), cai, correndo num grito vitorioso e libertador. Os olhos, portas abertas e escancaradas, revelam um interior vazio. Todo o brilho que ali havia foi roubado. Todo o mistério perdido. Toda a sabedoria fugida.
Um vazio ecoando o grito da lágrima, que levava com ela a essência da alma.
Outrora castanhos, até a cor já era inexistente substituída pelo cinzento do interior vão.
Era por esses mesmos olhos que Leonor observava, ausente, o reflexo dos seus olhos. Ou dos olhos da Leonor que ali estava, reflectida. Que não era ela que não podia ser ela, assim ali, imóvel, petrificada.
Ouve-se o ranger dos objectos que se movem não se movendo, numa sinfonia intangível que apetece perseguir, deixando o corpo para trás. Como aquele, que ali se mantinha no meio da sala circular, estático e oco, assim abandonado pelo imponente roubo da alma da Leonor. Ou de uma qualquer Leonor.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Excerto.
"I
Ela está sozinha no quarto apagado. A cabeça encostada ao vidro da janela, desfocado pela chuva que nele bate e embaciado da sua respiração. Olha para o quarto. Por mais candeeiros que ligue está tudo escuro, calado, parado. Lá fora o cenário é outro, vê as luzes das casas amontoadas, tudo muito tremido e ela compara-o à sua própria vida. Tremida. Sim, tremida é o melhor termo para definir aquilo que Catherine tem sido e feito. Levanta-se lentamente, a sua mão toca no vidro frio e, neste mesmo ritmo lento, calça-se e veste o primeiro casaco que encontra.
Desce as escadas, pé ante pé, em direcção ao hall de entrada. A casa permanece num transe imóvel e silencioso até ao primeiro sinal de vida. Um ruído crescente marca a presença de alguém na sala de estar a ouvir o noticiário.
Com um “boa-noite” largado no ar, sai para a rua. Também ela apagada. Fria. Desconcertante. A chuva tinha agora parado.
Era uma noite escura, carregada de nuvens ameaçadoras e Cath passeava sozinha. Não levara chave do carro, nem tão pouco guarda-chuva, decidira apanhar o metro sem destino. O frio de Inverno já se fazia sentir, Cath aconchegou o pescoço com a gola da camisola bege, enquanto o vento acariciava os seus longos cabelos castanhos.
Estava completamente perdida. Quando entrou no primeiro metro que chegou, os seus sentidos foram despertados pelo ar saturado, a mistura de vozes desconhecidas e pouco perceptíveis. Sentada entre plenos desconhecidos, não sabia ao certo o que pensar naquele momento. Como pudera ser tão idiota acreditando… Mexe-se desconfortavelmente no lugar onde está sentada e olha lá para fora. As árvores dançam com o vento lá fora. Folhas caem e fogem para longe.
É óbvio que deveria ter pensado que algo assim iria acontecer."
Ela está sozinha no quarto apagado. A cabeça encostada ao vidro da janela, desfocado pela chuva que nele bate e embaciado da sua respiração. Olha para o quarto. Por mais candeeiros que ligue está tudo escuro, calado, parado. Lá fora o cenário é outro, vê as luzes das casas amontoadas, tudo muito tremido e ela compara-o à sua própria vida. Tremida. Sim, tremida é o melhor termo para definir aquilo que Catherine tem sido e feito. Levanta-se lentamente, a sua mão toca no vidro frio e, neste mesmo ritmo lento, calça-se e veste o primeiro casaco que encontra.
Desce as escadas, pé ante pé, em direcção ao hall de entrada. A casa permanece num transe imóvel e silencioso até ao primeiro sinal de vida. Um ruído crescente marca a presença de alguém na sala de estar a ouvir o noticiário.
Com um “boa-noite” largado no ar, sai para a rua. Também ela apagada. Fria. Desconcertante. A chuva tinha agora parado.
Era uma noite escura, carregada de nuvens ameaçadoras e Cath passeava sozinha. Não levara chave do carro, nem tão pouco guarda-chuva, decidira apanhar o metro sem destino. O frio de Inverno já se fazia sentir, Cath aconchegou o pescoço com a gola da camisola bege, enquanto o vento acariciava os seus longos cabelos castanhos.
Estava completamente perdida. Quando entrou no primeiro metro que chegou, os seus sentidos foram despertados pelo ar saturado, a mistura de vozes desconhecidas e pouco perceptíveis. Sentada entre plenos desconhecidos, não sabia ao certo o que pensar naquele momento. Como pudera ser tão idiota acreditando… Mexe-se desconfortavelmente no lugar onde está sentada e olha lá para fora. As árvores dançam com o vento lá fora. Folhas caem e fogem para longe.
É óbvio que deveria ter pensado que algo assim iria acontecer."
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