sábado, 2 de julho de 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

As palavras estão gastas.

Agora percebo o poema de Eugénio de Andrade, e o que quer dizer com as palavras estarem gastas.
Pelos vistos isso acontece... e qual a solução? Para ele o adeus, e para mim, para nós? Adeus?
O que fazer quando as palavras já estão gastas, e não sobra nada mais para dizer? Consequentemente, nada a fazer?
Não sei, e as palavras estão gastas.
É assim que acaba?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Tic, tac.

Os ponteiros do relógio pequeno da mesinha de cabeceira fazem a sua marcha, sempre no mesmo ritmo. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. É mais ou menos isso. É aquela cena do tempo, sabes? Intrigante. A mim faz-me pensar. Não no tempo por assim dizer, mas pensar. Só pensar.
O som dos ponteiros ecoa na minha cabeça. E a eles junta-se o vento que bate na portada, e o soalho de madeira que range de vez em quando. Mas só quando ninguém está a ouvir.
E então dou por mim de pé, a seguir a melodia que se vai completando com silêncio. Será isso possível? Ás vezes também acho que ouço o silêncio. Não o silêncio que não se ouve, mas o silêncio que devia ser silêncio e que deixa de o ser porque se consegue ouvir.
Isto faz algum sentido?
Procuro o relógio pequeno da mesinha de cabeceira, e então algo curioso acontece. O relógio pequeno não está na mesinha de cabeceira. E a minha mesinha de cabeceira metamorfoseou-se. Ou envelheceu. Não sei bem. Envelheceu em si, e envelheceu no tempo. Como se tivesse voltado a um tempo antigo. Ou este tivesse avançado demasiado depressa. E então envelheceu, porque o tempo passou.
O mesmo aconteceu com o quarto. Que não era o meu quarto.
Era o meu quarto, claro, fazia sentido ser o meu quarto. Porque motivo estaria eu a dormir num quarto que não era meu numa casa que não era minha?
Era meu, e eu sabia que o era por causa do tic-tac. Ouvia-o.
Mas não sabia de onde vinha.
Os pés ordenavam o cérebro. Sim, os pés é que ordenavam, o texto é meu por isso eu é que sei.
Ordenavam o cérebro a seguir e a concentrar-se, enquanto avançavam, um à frente do outro, pelo corredor daquela casa que era minha, mas que não podia ser minha.
Estava a alucinar, sei lá.
O tic-tac misturava-se com os sons da noite, aqueles sons que nos inspiram a fazer aquela música esquisita. Post-rock, para os entendidos. Rock fofinho, para os amigos.
A Leonor seguia pela carpete encarnada, que cobria o soalho de carvalho escuro e envernizado.
Leonor? Não era de mim que estavamos a falar?
Já não sei.
Ela caminhava descalça, e gostava da sensação da carpete nos pés. Ou então estava a confundir isso com qualquer outro sentimento iminente naquele momento.
Andava, assim.
De repente, sabia perfeitamente de onde provinha aquele delicioso som. Não, melodia.
Correu pelas escadas, e sentindo-se ofegante sorriu, deixando-se levar.
Chegou a um átrio amplo, ou sala. Não sabia o quê ao certo porque parecia um átrio de um palácio antigo, mas tinha sofás espalhados, como uma sala.
Apercebeu-se então de que esses sofás, tal como tudo o resto naquela casa, estavam cobertos com lençóis brancos. Brancos e sujos.
Voltou a subir, correndo.
A cama, onde estava deitada não existia. Ou melhor, não existia agora, mas tinha existido. E para provar a sua existência estava um estrado, também coberto por um lençol branco sujo. O esqueleto velho de uma cama, outrora minha. Ou de alguém.
Correu pelo corredor, abrindo todas as portas.
Uma agonia tomou o lugar do êxtase que a ocupava. Uma agonia doentia. Frustrante.
Não havia lá nada, a não ser marcas do que houve. Lembranças e esqueletos.
Até morcegos velhos, adormecidos no sótão.
Eu sei porque fui lá ver.
E a Leonor, onde foi?
Corri de novo, lá para baixo, e apercebi-me do pó que pairava no ar, sempre que corria em frente.
Decidi parar de correr, afinal podia andar. Andar, só.
Dirigi-me para o meio do átrio, e parei em frente ao relógio. Não o pequenino da minha mesinha de cabeceira. Mas um grande, velho. Ornamentado com linhas douradas. Ou pelo menos assim o foi, um dia.
Questionei-me... porque tudo estava coberto com lençóis brancos sujos, à excepção daquele relógio?
E agora que pensava nisso... que estranho relógio!
Como se alguém tivesse aumentado o volume da minha cabeça, comecei a ouvir tic-tac, tic-tac, tic-tac.
Os ponteiros não se mexiam.
A agonia anterior desvanecia. O êxtase não crescia.
Não voltei a dormir. Mas também não estava acordada.
Era só isso. E eu já tinha percebido.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Eu quero estar lá.

O mau dos sonhos é que não duram muito. São bons e nós somos os melhores lá. Não há nada que nos destrua, a não ser que o sonho não seja sonho, e seja pesadelo. Aí já não somos os melhores, e queremos que acabe e que alguém ao nosso lado nos abrace e diga "já passou, foi só um sonho mau".
O problema dos sonhos é que nos dão a conhecer o que de melhor temos. Ou queremos ter. E depois acabam.
E se o sonho for bom, e nos fizer os melhores, e nos der a conhecer uma felicidade insubstituivel... e depois acabe?
E se quando acabar, não estiver ninguém ao nosso lado para nos dizer " está tudo bem, vai ficar tudo bem"?